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EU estaria batendo pernas pelo shopping domingo cedo, discman programado para tocar ininterruptamente a faixa Beware of darkness, do George Harrison. Me recordaria de episódios passados comigo naqueles corredores todos, o que acabaria fazendo minha antiga implicância com o número trinta e oito vir à baila: o trinta e oito no termômetro indicando febre, o três oitão e sua sinistra vulgaridade, uma moeda horrorosa de duzentos réis, com a efígie de Carlos Gomes, cunhada em 1938.
Etc.
Eu estaria a um mês e meio de completar trinta e oito anos.
Então eu lembraria da Yoná, uma namorada que tive na adolescência que morava em Descalvado e da vez em que ela passou uma tarde aqui em São Paulo e que nós fomos ao shopping com uma tia dela que foi fazer compras enquanto eu e ela ficamos passeando a sós até que uma hora a gente parou pra tomar um lanche no Julie & Jim e que aí eu me dei conta de que Yoná não era, nem de longe, a mulher da minha vida, assim como ela também deve ter se dado conta de que eu, nem de longe, era o homem da vida dela.
O que teria se passado com Yoná nesses vinte e dois anos? O que ela poderia estar fazendo agora? Será que se lembraria de mim?, talvez eu me perguntasse.
Então eu começaria a ficar meio arrependido de não ter trazido comigo outro CD além do All things must pass, do George Harrison, e desligaria o discman.
EU poderia morar em Pinheiros, num prédio de três andares com as paredes recobertas de hera. Meu apartamento não teria muitos móveis: sua aparência sugeriria uma mudança que não chegou a ser completada.
Coisas provisórias que se tornam definitivas.
Etc.
O fato de viver sozinho não me incomodaria muito. Talvez até o contrário disso: a perspectiva de me encontrar de novo numa relação estreita demais com uma mulher é que seria aflitiva para mim.
EU estaria no Shopping Center Iguatemi, domingo cedo, onde não haveria ninguém além de mim e do pessoal de segurança e manutenção. Seria um dia de sol e calor e eu estaria ouvindo no meu discman o CD Boys for pele, da Tori Amos.
Subitamente eu lembraria do sonho que tivera à noite: nele eu teria comprado uma balsa em sociedade com uma namorada dos tempos de adolescência, a Yoná. O problema é que não teríamos onde deixar a balsa até que fosse possível transportá-la a uma praia (ou mesmo um lago). Acabaríamos largando-a num estacionamento perto do Mackenzie que na verdade seria um cemitério de automóveis – um lugar repleto de mendigos, viciados em drogas e policiais corruptos que tentariam extorquir dinheiro de nós.
No sonho, o rosto de Yoná seria idêntico ao da atriz Françoise Forton.
Depois de ouvir pela quinta ou sexta vez consecutiva a faixa Little Amsterdam, eu desligaria o discman. Então veria o Almanara já funcionando e pararia lá para tomar um café.
Eu lembraria de quando conheci a Yoná, num carnaval que passei em Descalvado, em 1980.
1980: eu no 1o. colegial.
1980: eu com quinze anos.
1980: eu louco para tirar carteira de motorista e aterrorizado com a possibilidade de ter que servir exército.
EU teria um apartamento em Pinheiros, num prédio de três ou quatro andares com as paredes recobertas de hera. Dada a antiguidade do imóvel (construído em 1965, ou seja, com trinta e oito anos de idade), ele poderia ter constantes problemas na parte hidráulica.
Minha relação seria cordial com a maior parte dos vizinhos, com exceção aos moradores do apartamento 23, o Milton e a Arlete.
Milton e Arlete seriam um casal de quarentões pernósticos que sempre sairiam juntos domingo de manhã – com roupas a caráter e óculos escuros – para fazer jogging.
EU estaria passeando no Shopping Iguatemi. Teria acordado naquele dia com a música Under the bridge, do Red Hot Chili Peppers, na cabeça e estaria tentando lembrar sobre o que ela falava – vício em heroína, a história do primeiro guitarrista da banda, o Hillel Slovak, que morreu de overdose se picando num cemitério de carros, qualquer coisa assim.
Yoná e as crianças estariam passando férias com os pais dela, em Descalvado. Em função disso, eu estaria experimentando, pela primeira vez depois de doze anos, um certo gostinho da vida de solteiro.
Teria arriscado inclusive, na noite anterior, uma saída com uma garota de programa.
Teria ido com ela a um motel chamado Jules et Jim, no Morumbi.
Victória – a tal garota – teria me contado algumas coisas sobre si: que era capricorniana com ascendente em peixes, que já trabalhara como vendedora na M. Officer, que chegara a prestar vestibular para odontologia, etc.
Apesar de simpatizar com ela, eu perceberia que Victória jamais poderia ser aquilo que costumamos chamar de mulher da nossa vida.