A COISA começou como uma private joke entre mim e meus irmãos, especialmente o Johnny. A gente começou a usar o adjetivo vudu para designar certas pessoas, filmes, músicas, comportamentos, etc. E o que exatamente é esse raio de vudu? (Vou usar o neologismo vudu mesmo, com u.) Por exemplo, o filme mais vudu que eu já vi foi o Trem para as Estrelas, do Carlos Diegues. Que fez outros filmes igualmente envuduzados, como Chuvas de Verão. O Jofre Soares dando um crau na Miriam Pires, filmado pelo Diegues, não é apenas um velhote exercendo seu sagrado direito de afogar o ganso, mas sugere toda uma esperança (1) piegas, uma vontadezinha de afirmar que, apesar de toda matéria fecal de que a vida é feita, a vida, puxa, no fundo é bonita, é bonita e é bonita. É isso: por que será que a maioria das músicas, por exemplo, que falam de esperança (2), ou que enfatizam demais a alegria, suscitam sentimentos contrários aos que elas ostensivamente dizem promover?

Não, a vuduzança não tem nada a ver com depressão e niilismo escancarado. O Ian Curtis, o cantor do Joy Division que se enforcou, não era vudu. Era suicida, apenas. Nem tem a ver com personalidades trágicas, como a do Nelson Rodrigues. Nelson, apesar de todos os horrores que enfrentou em sua vida pessoal, fodia e gozava dentro. (Em comparação, o Diegues, se tanto, bate punhetas malbatidas em seus filmes.) Nem tem a ver com tipos mórbidos, como o Zé do Caixão ou o Hanibal Lecter. Esses caras todos são radicais, não tiram o rabo da seringa, cumprem seus destinos sombrios, queimam tudo até a última ponta. Os vudus, ao contrário, sugerem a moderação do impotente, a esperança (3) do fracassado, a “simplicidade” de quem na verdade é apenas primário e tosco, o “humanismo” de pessoas que têm suas invejas muito mal assumidas. Ou seja, recalques e vuduzança andam juntos. Lembro um momento extremamente vudu no filme Adeus, Lênin. Alguém dizendo, em tom sentimentalóide, que na Alemanha Oriental eles não tinham carros modernos e outros confortos burgueses, mas que experimentavam, em compensação, a felicidade de estar construindo uma sociedade justa e igualitária para suas crianças no futuro. O.k., ninguém é contra a justiça e a igualdade, o problema não é esse. Além de a afirmação ter a marca da demagogia – é próprio do demagogo não matizar palavras grandiloqüentes como liberdade, amor, justiça, paz, igualdade e tutti quanti –, a coisa soa como papo de pobre orgulhoso. E, essencialmente, é. Puro papo de pobre orgulhoso. Acho também o bucolismo hippie, aquela coisa de querer só uma casinha no campo, com um quintal e uma janela pra ver o sol nascer, coisa de quem no fundo tem é uma baita inveja da burguesia.

A vuduzança adora falar em esperança (4), em amanhã, em começar de novo. Sim, o Ivan Lins, a despeito de sua simpatia pessoal, é um compositor envuduzado. Outros hinos vudus: O Bêbado e o Equilibrista, da Elis Regina (essa é hors concurs...). Amanhã, do Guilherme Arantes. Let it be, dos Beatles. Já Tempos Modernos, do Lulu Santos, por exemplo, não só não é vudu, como é poderosamente afirmativa sobre a vida – a vida tal como ela é. Talvez porque seu recado seja lúcido: vamos viver tudo que há para viver, nos permitir, porque o tempo voa e aí, meu velho, um belo dia, baubau. Bêbados e equilibristas, essa gente que adora um respirar fundo e um começar de novo (sempre amanhã, é claro), parece meio avessa à lucidez. E pelo jeito prefere viver só esperando, esperando, esperando.

(Vejo que condenei ao inferno toda a discoteca básica dos petelhos – Elis Regina, Ivan Lins, Gonzaguinha, etc. Agora lembro que o Paulo Francis disse uma vez que a esquerda é sempre kitsch, porque filha espiritual de Jean-Jacques Rousseau, que acreditava em pote de arco-íris no fim do ouro. Ou seja, Rousseau era um apóstolo da esperança (5), do devir, etc. Um babaca, em suma.)

Humor também pode ser vudu. Acho a Praça da alegria extremamente vudu. O Carlos Alberto Nóbrega, ultra-emotivo, sempre chorando, é vudu. O Ari Toledo é vudu. O Zé Rodrix, em sua época de cantor irreverente, era vudu. (A tal Casinha no Campo não é dele?) O Raul Seixas era vudu. Palhaço de circo é vudu. O Charles Chaplin, embora genial, aqui e ali era bem envuduzado, especialmente naquela parte de O Grande Ditador, em que ele fala não sei o que das máquinas e que a humanidade precisa de mais doçura e tals. O Renato Aragão apresentando o Criança esperança (6) é ultravudu. Gente vudu é incapaz de rir do Millôr Fernandes dizendo, “Dizem que Sir Ney é muito supersticioso. Por que não falam pra ele que escrever livros dá azar?”. Ou rir do Woody Allen dizendo para a Diane Keaton, em Manhattan, que ela conhece um bocado de gênios e que se ela conhecer umas pessoas burras de vez em quando é capaz que aprenda alguma coisa. Gente vudu, embora aqui e ali dê uma de engraçadinha, no fundo se acha muito séria.

Lembrei de outra coisa vudu: musiquinha de Natal e de Ano Novo. Puta que pariu. Que tudo se realize, no ano que vai nascer. Seja rico, seja pobre, o velhinho sempre vem. A mesma ladainha esperançosa (7) de sempre. Será que é isso – esperança (8) – que está sempre na raiz do modo vudu de ser? Estou desconfiado. Caraca, lembrei aqui, o Carlos Diegues não fez um filme chamado Dias Melhores Virão? E um outro, hipervudu, chamado Bar Esperança (9), o Último que Fecha? (Tá, esse foi o Hugo Carvana quem dirigiu. Mas não importa. A esquerda festiva é vudu, sempre.) Sim, camarados e camaradas: minha desconfiança virou certeza absoluta. A esperança (10) que se foda.