ESTOU sentado com o Maurício nas arquibancadas da pista de atletismo do Clube Pinheiros. A manhã está bastante fria e, para aquecer um pouco meu rosto, o cubro parcialmente, erguendo a gola de lã da minha jaqueta. Maurício, meio entediado, picota o celofane de uma caixinha de balas Van Mell enquanto me diz alguma coisa sobre o teclado Juno 106, da Roland, estar saindo da fábrica com um defeito no gerador de ondas senoidais ou coisa que o valha. Um corredor parado próximo à pista faz exercícios de alongamento e, vendo o ar sair de suas narinas em forma de vapor, tenho uma súbita vontade de fumar. No entanto, me lembro de que ainda estou em jejum e que costumo ter tonturas quando fumo com o estômago vazio.

– Vamos comer alguma coisa? – proponho, apalpando o maço de cigarros no bolso interno da minha jaqueta.

– Onde?

– Sei lá. – pausa. – Será que a lanchonete do tênis já abriu?

Maurício se levanta, cruza as mãos sobre a nuca e dá um rápido bocejo. Também me coloco de pé, esfrego uma mão contra a outra e então começamos a andar e reparo que nossos passos aos poucos vão se sincronizando, embora não consiga determinar quem esteja procurando se sincronizar aos passos de quem. 

 

OBSERVO as fissuras na fórmica do balcão da cantina próxima às quadras de futebol enquanto o Maurício dá as últimas mordidas num misto-quente. A Coca-Cola que acabei de tomar, meio sem gás, não assentou muito bem no meu estômago. Em todo caso, decido pegar um Carlton, o bato algumas vezes contra o isqueiro para compactar o tabaco e, por fim, o acendo. O Maurício, limpando a boca com um guardanapo, diz:– Passando o show no Victoria eu vou sair da banda.Fito um pouco seu rosto e assinto, pensando que essa deve ser a décima vez que Maurício declara isso. Ele complementa:

– O Fred e o Guto são legais, eu gosto deles. Só que... não dá mais pé ficar tocando essas musiquinhas do Zero e do RPM.Trago o cigarro, sinto bater um pouco de tontura e digo:

– O.k.

Maurício passa a mão por sua barba de três dias, meio irrequieto, e me pergunta:

– E você, está pensando em fazer o quê?

– Sobre a banda?

– Hum-hum.

Penso um pouco e então lhe respondo:

– Não sei. Não sei mesmo.Uma garota, vestindo um abrigo de moletom, chega à cantina e pede um Ovomaltine. Embora ela não seja feia, seu rosto me faz pensar, não sei por que, no Fausto Silva.

– Você é um cara engraçado. – Maurício me diz.– Engraçado?– Hum-hum.A garota flerta comigo e eu retribuo com um sorrisinho de canto de boca. Maurício continua falando:

– Você... porra, Ivan, sabe o que é? Eu não sei o que se passa na sua cabeça, você parece ter uma puta inteligência, joga xadrez pra cacete e tal, mas... não sei por que diabos às vezes você faz tanta questão de parecer burro.– Burro por quê? – lhe pergunto, tentando fazer bolinhas com a fumaça do cigarro.– Por quê? Porque você não se dá o devido valor, cara.A garota começa a tomar o Ovomaltine. Não consigo analisar o que me inquieta nela, pois a frase não se dá o devido valor fica espocando intermitentemente dentro da minha cabeça. Fissuras.

– Sabe o que eu li outro dia numa revista? – digo ao Maurício.  

– Hum.

– Uma reportagem sobre um sujeito lá na Inglaterra que faz chouriço com o próprio sangue.

– Chouriço com o próprio sangue?

– É.

 

ENSAIO na casa do Maurício, à tarde. Estamos tocando Just can’t get enough, do Depeche Mode, e não consigo ouvir direito o que o Fred canta. O volume de som está beirando as raias do insuportável. I just can’t get enough, I just can’t get enough. Toco distraído, olhando para os pôsteres colados na parede do quarto, um de uma moto BSA, outro com a foto de um piano em que está escrito o nome Zbigniew Meyerowitz. Guto bate insistentemente no prato China Type, da Paiste, que ele comprou nessa semana. Penso em qual será a nacionalidade do tal Zbigniew Meyerowitz, que, segundo o Maurício, é um pianista famoso.Terminamos a música, desligamos os amplificadores e, depois de ouvirmos um trecho da gravação que fizemos e nos recompormos um pouco, vamos à cozinha tomar lanche.

– Vocês viram aquele modelo americano que morreu? – diz o Guto, fazendo um sanduíche de pão com queijo. Fred comenta:

– Aids, né? – pausa. – E o pior é que o cara não tinha a menor pinta de veado.

– Ele era bi. – diz Maurício. – Comia as bichas, também.

Encho um copo de Coca-Cola e pego umas fatias de salame.

– É, ching-ling-lin, não é bolinho, não. – diz Fred. 

Silêncio.

– Hum. Essa coisa de aids não tem a ver com aquele nitrato que os veados usam pra transar? – Maurício pergunta.

– Não. No começo os médicos pensaram que fosse isso, só que não tem nada a ver. – diz Guto.

Tique-taque do relógio na parede.

Fred, após liquidar num único e longo gole um copo inteiro de Coca-Cola, diz, mudando de assunto:

– O Candeias disse que vai ver nosso show. Ele conhece o Poladian e disse que pode jogar nossa fita na mão dele.

– Sério? – Maurício pergunta, entusiasmado.

– Hum-hum.Laís, a mãe de Maurício, entra na cozinha e pega uma garrafa d’água na geladeira. Ela está usando uma calça fuseau lilás e seus cabelos estão presos com uma tiara. Toda vez que vejo a Laís, não consigo não pensar na Debbie Harry, a vocalista do Blondie.

 

À NOITE vamos a uma festa no Santa Cruz, colégio da Márcia, namorada do Fred. Vejo de cara uma garota que estudava no colegial do Sacre Coeur quando eu estava na quinta ou sexta série. Ela continua linda – ainda usa os mesmos cabelos lisos repartidos ao meio e suas roupas, uma malha de cashemere e uma calça jeans bem justa, lhe dão um ar meio anos setenta, meio Rita Lee na época dos Mutantes. A garota está sentada no parapeito de uma janela, com as pernas dobradas, e há um cara com ela, um loiro meio cabeludo que talvez seja seu namorado. Ambos estão bem na deles, plácidos demais, o que me faz desconfiar que talvez estejam drogados.Uma banda toca Killing an arab, do The Cure. Maurício presta atenção no tecladista, notando cada falha do cara para ter certeza de que toca melhor que ele. Guto, Fred e Márcia deram uma sumida e desconfio que foram até o carro cheirar lança-perfume.

 

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