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VAN HALEN É sábado à noite e você está em casa, deitado no quarto, sem camisa. Apesar da janela estar aberta e a luz, apagada, o calor parece não haver diminuído muito. Esse está sendo – segundo uma notícia que passou no Jornal nacional de ontem – o mês de janeiro mais quente dos últimos quinze anos. Você ouve vir da rua, de quando em quando, o som ligeiramente afastado dos carros que passam na Tutóia. Resolve, então, acender um cigarro, enquanto procura se lembrar em que fita gravou o disco Fair warning, do Van Halen – talvez numa Scotch daquelas transparentes, talvez numa BASF Chromo, ou quem sabe até mesmo numa daquelas TDKs frias que o Pincel trouxe do Paraguai. Você gostaria de ouvir agora a faixa Hear about it later, mas a simples hipótese de procurar a fita em meio às centenas que estão ali, no armário, jogadas numa gaveta, o faz desistir da idéia.

 

FURO Você telefona para o Salles, que atende a ligação e logo assume seu costumeiro tom provocador:

– E aí, Janjão, já tirou aquela coisa de veado da orelha?

Você ignora o que ele acabou de dizer e lhe pergunta:

– Hum. Tá fazendo o que aí?

Salles responde, “No micro”, e então você diz, “Vem pra cá, vamos pedir uma pizza”. Ele, após fazer um pouco de cu doce, acaba resmungando uma resposta que você sabe que quer dizer mais ou menos “o.k.”. Quando você vai desligar o telefone, ao afastá-lo da orelha sente que o furo do brinco continua levemente dolorido.

 

NIGHT CLIP É a quarta ou quinta vez que vocês pedem pizza na Las Vegas e a mussarela vem salgada muito além da conta. Salles pareceu não se importar com isso e comeu seis pedaços, além da maior parte das azeitonas. Você acaba de acender um cigarro, enquanto ele diz:

– Quer ver, duas coisas típicas de jeca: chamar maço de cigarro de carteira e pizza de disco. É o fim, cara, disco de pizza é o fim.

– Hum. – pausa. – E que palavra você usa em vez de disco?

– Nenhuma, ué. Quando um sujeito diz a palavra pizza, todo mundo entende no ato o que ele quer dizer, não entende? Então.

Você olha para o cuco na parede e vê que já são quinze para as dez. Algumas horas separam vocês daquele provável momento em que estarão largados em frente à TV, vendo o Night clip, vencidos pelo sono ou pelo tédio. Portanto, é necessário que arranjem – e logo – alguma coisa minimamente prazerosa com que se ocuparem.

– Vamos ao Shampoo? – você sugere, calculando por alto que seu dinheiro dá pra bancar a entrada mais duas ou três cervejas.

– Shampoo? Não, cara. Não estou a fim de torrar minha grana em boate hoje. – Salles diz, manuseando de modo distraído o maço de Hollywood que você largou há pouco sobre a mesa.

Você repara que sobrou uma única azeitona na caixa de pizza. Um som de TV, oco e afastado, vem do quarto de seus pais. Você pensa, com certa melancolia, que provavelmente eles estão assistindo ao Viva a noite e que daqui a pouco seu velho irá descer, com o rosto amassado e o cachimbo recém-aceso no canto da boca, para pegar uma xícara de café na cozinha.

Passarinho quer dançar, o rabicho balançar, porque acaba de nascer, tchu, tchu, tchu, tchu.

É diá de festa.

Etc.

 

CALCULA AÍ – É uma casa de massagem lá no Itaim. Meus primos já foram, disseram que é coisa finíssima. – Salles sugere.

– E quanto morre?

– Um pau e meio. 

Você arregala os olhos e assobia.

– É, é meio caro, mas vale a pena.

Um milhão e quinhentos mil cruzados.

– Não dá, Sal. Eu não tenho essa grana.

– Não?

– Pô, cara, calcula aí, isso são mais de cem dólares.

Salles pensa um pouco, batendo com o dedo indicador nos dentes frontais superiores, e então diz:

– Já sei. Se você topar, eu conheço um cara que pode te quebrar um galho.

 

CANALHA BONFIM Você – é claro, é óbvio – recusou veementemente a proposta que Salles lhe fez, a de pedir cem dólares emprestados a um agiota conhecido dele. Contudo, ao mencionar o nome Astolfo, Salles se lembra de que tem uns drives de computador pra pegar na casa dele. Pede, então, para usar seu telefone, disca um número e tem uma conversa curta, mas amistosa com o tal do agiota, na qual o trata familiarmente pelo apelido de Canalha Bonfim.

– E aí, vamos lá? É rapidinho, em uma hora a gente tá de volta. – Salles o convida.

– Onde?

– Em Santo Amaro, lá perto do Borba Gato. 

Sem nada melhor para fazer – e pensando que a figura sorumbática de seu pai, com um Plumb no canto da boca e palavras depressivas na ponta da língua, logo poderá assomar na sala –, você topa ir. (...)

 

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