ESTOU deitado num deck, com os braços cruzados sob a nuca, olhando para lua e algumas nuvens que parecem iluminadas como que por uma luz que tivesse vazado de um estúdio de fotografia cuja porta alguém tivesse esquecido de fechar por completo.
Você está a meu lado, sentada numa cadeira de plástico, falando sobre aquele cara de quem você vem falando quase que obsessivamente já há alguns meses.
Penso na familiaridade de sua voz, que essa familiaridade me agrada – sua voz, espantosamente singular, é a única coisa que me separa do vazio, da indiferenciação e das reflexões óbvias sobre eternidade e finitude a que este céu e esta claridade lunar fatalmente me levariam.
Tento pensar no Woody Allen, em como ele dirigiria essa cena.
Que piada ele colocaria na boca de um personagem seu que estivesse deitado num deck, olhando para o céu e ouvindo a ex-mulher falar sobre um homem de quem ela vem falando dia e noite, há meses?
Ao nosso lado, há uma piscina com as lâmpadas acesas.
Mais ao fundo, a seqüência de casas do condomínio, todas, com exceção à nossa, desocupadas nessa noite de quarta-feira, do mês de setembro, do ano de 2007.
Você disse há pouco que quer tirar uma foto de perfil contra esse fundo aquático, azul, mas não sei se a máquina captará bem sua imagem.
Eu continuo prestando atenção nas coisas que você diz, enquanto imagino como seria transar com você de novo.
Seria como a gente destampar um buraco e ver que há apenas um buraco, ali, onde outrora houve muitas coisas?
Seria um esforço doloroso e inútil tentar pensar em coisas com que o preencher?
Perceberíamos que na verdade esse buraco nosso sempre foi preenchido, em nossa de certa forma infeliz história, com coisas indevidas?
Buraco.
Você então diz que é curiosa a situação que temos – nossas erráticas vidas amorosas, nossos celulares cheios de torpedos que às vezes esquecemos de apagar, nossos contatos no MSN, nossos contatos no Orkut, nossos contatos no Par Perfeito, todas essas coisas, mas que estamos hoje mais juntos do que jamais talvez tenhamos estado.
Em tom brincalhão, você diz que provavelmente iremos voltar a ser um casal quando formos velhos, “Depois que a gente gandaiar bastante”.
Isso me inquieta, mas não consigo articular uma resposta imediata.
Penso um pouco sobre o assunto e acabo chegando à conclusão de que não tenho a idealização sentimental que você tem sobre a velhice.
Não, eu não quero pensar em nossos corpos de aqui a 30 anos, envelhecidos, encarquilhados, exaustos.
Nossos corpos tentando dar a entender o entendimento e a intimidade de um passado lúbrico em comum vivido em sua plenitude.
Penso em dizer que será melancólico tentarmos sugerir, quando formos velhos, um despudor o qual nossos corpos não estarão mais qualificados para exercer.
Penso em dizer, sobretudo, que daqui a 30 anos não teremos o direito de fingir que fomos o que na verdade não fomos um para o outro quando jovens.