
O QUE eu diria do Freud se ele fosse, tipo, meu vizinho de casa de praia? Eu diria, “Pô, mó figuraça, o Sig. Não acredito em nada do que ele diz, mas ele é, tipo assim, um cara absurdamente imaginativo”. O Nelson Rodrigues costumava dizer que os gênios jamais atraem a multidão de cretinos que compõe 98% da humanidade, mas que basta um paspalho trepar num caixote de querosene jacaré em praça pública e começar a proferir suas sandices que logo a humanidade comparecerá em peso para ouvi-lo. Freud inverte um pouco esse jogo. Ele, que sem dúvida tinha gênio, curiosamente exerceu grande fascínio, influência e persuasão sobre os imbecis. E o que os idiotas fizeram com as especulações do Sig? Transformaram a coisa em ortodoxia, escarafuncharam cada vírgula que ele escreveu, passaram a medir e a pesar todas as condutas humanas e todos os processos imaginativos humanos com esse metro grosseiro de ego, id, superego, Édipo e a puta que pariu, transformaram as eventuais epifanias de Sig numa religião secular das mais xexelentas, que ainda, vejam só, cobra de seus fiéis 200 contos pela tal hora de 50 minutos. Freud é meu chapa, indiscutivelmente chapa. (Tenho muitos amigos no além, aliás, tutti buona gente. Por que tenho de continuar suportando a presença e a comparação com esses orangotangos de terno e gravata que me rodeiam, com seus cargos de gerência em multinacionais e suas peruas Eco Sport, todos se achando muito malandros só porque de vez em quando vão ao Love Story para serem expropriados por alguma transmissora de DSTs?) Mas do que eu estava falando mesmo? Ah, é, de Freud. Como eu dizia, Freud é meu chapa. Porém, o que ele diz me soa, sempre, como aquilo que em literatura chamamos de voz narrativa não confiável. Sei lá, mano, desde que me divirtam, nada tenho contra meus amigos serem delirantes e mentirosos. Sou tolerante, democrático, diversificado. Não só aceito como acho vital a tensão dialética, a alteridade, “o outro”. Acho certas provocações um ato de deferência que temos em relação a pessoas que admiramos, apesar de discordamos radicalmente delas.
Saindo dos alhos e indo pros bugalhos, acho o Mike Nichols do caralho. Mike Nichols dirigiu Closer (Julia Roberts dizendo para o marido que o traiu no sofá da sala do apartamento deles e que a porra de seu amante é doce) e dirigiu The Graduate, A primeira noite de um homem. Não sei o que mais dirigiu nesse interregno. Uma das coisas mais ululantes e, uau, balsâmicas que experimentamos logo nos primeiros momentos de The Graduate é nos depararmos com um mundo ainda incontaminado de freudices, correções políticas e outros horrores da vida pós-moderna. Um mundo de espaços amplos, batidos pelo sol, uma Los Angeles cheia de casas com piscina, restrita a Berverly Hills, of course, e, como diz o avô do Marcelo Mirisola, que se foda a torcida do “curíntias”. Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) se formou, summa cum laude, na universidade e está voltando para umas semanas de férias antes de pegar no batente. Há uma festa feita por seus pais para recepcioná-lo. Um sujeito, um daqueles panacas que costumam dizer, “rapaz, te conheço desde que você era desse tamanhinho, ó...”, leva Benjamin para o quintal, põe a mão paternalmente em seu ombro e lhe diz, “Meu jovem, guarde essas palavras... está preparado para ouvi-las?”. Benjamin, atento, aturdido, perplexo, diz que está. O sujeito diz, “Plásticos. Há um grande futuro no ramo dos plásticos. Pense nisso, o.k.?”. Benjamin se livra do mala e vai se refugiar em seu quarto. Logo mrs. Robinson (Anne Bancroft) entra porta adentro, fazendo de conta que estava procurando pelo banheiro e se confundiu. E, já que está ali mesmo, resolve acender um cigarro e puxar um papinho como garotão. (Como é deliciosa a senhora Robinson...) Pede um cinzeiro para Benjamin e ele, todo nerd, lhe dá um cesto de lixo. A senhora Robinson diz, “Ah, esqueci que o jovem perfeito e brilhante não fuma...”. Pra resumir a situação toda, ela o convence a levá-la em casa, o convence a entrar, o convence a descer o zíper de seu vestido. Benjamin faz tudo isso se comportando como um mané, fugindo ostensivamente do assédio ostensivo que está sofrendo, “Mrs. Robinson, you´re trying to seduce me, aren´t you?”. Ela acaba ficando pelada e diz que quer sair com ele. E Benjamin se mantém de olhos fechados ante aquela inacreditável fêmea, transido de pavor com a perspectiva de que o senhor Robinson possa chegar naquele exato instante.
Não vou, claro, contar o filme todo, só a próxima seqüência, que acho uma das mais lindas, inventivas e primorosas da história do cinema. Ela é um raríssimo momento em que uma metáfora, uma alusão, é clara sem ser óbvia, é elucidativa sem ser didática. É reveladora, em suma. Profundamente reveladora. Várias coisas contribuem para isso e vou comentá-las mais adiante. Pois bem, após o papelão com a mrs. Robinson, o show de manezice explícita na casa dela, vemos uma cena onírica em que Benjamin é exibido por seus pais, num churrasco no quintal de casa, usando roupas de mergulho. Todos riem muito, acham uma gra-ci-nha o jovem e perfeito rapaz vestido de homem-rã. Parte da cena é feita em câmera subjetiva, com a visão de Benjamin através da máscara de mergulho. Ouvimos o som oco de sua respiração, o que dá um efeito claustrofóbico incrível. Benjamin, então, mergulha na piscina de casa. Nada um pouco, tenta vir à tona, mas seu pai, rindo muito, um riso muito sinistro (o cara que dirigiu aquele clipe de Black Hole Sun, do Soundgarden, certamente se inspirou nessa passagem de The Graduate), o empurra de volta para as profundezas aquáticas. Benjamin se deixa ficar submerso, inerte, apenas respirando e soltando bolhas de ar na água. Mais uma vez, o efeito sonoro disso é maravilhoso. A câmera vai se afastando, vamos perdendo os contornos de Benjamin, até que tudo fica azul. Corte para Benjamin Braddock numa cabine telefônica, em frente a um hotel, ligando para a senhora Robinson, “podemos tomar um drinque, senhora Robinson?”.
A seqüência é estruturalmente perfeita. Na verdade ela corresponde a dois estágios dramáticos, o “encontro com o mentor” e a “travessia do primeiro limiar”, naquele esquema proposto pelo Joseph Campbell. O mentor, no caso, é a própria consciência de Benjamin, que mostra o quanto ele, apesar de summa cum laude e tudo, ainda não passa de uma criança, do quanto papai e mamãe ainda se divertem à sua custa, etc. Do quanto, em suma, ele precisa romper com aquela estrutura claustrofóbica e sufocante. E eis que a senhora Robinson surge como o arauto que explicita e anuncia essa necessidade de mudança, que o chama à aventura, à vida adulta, a esse rompimento do qual ele tanto necessita e o qual, é claro, tanto o apavora.
E eu penso cá com meus botões e zíperes o que Freud teria a dizer dessa duplinha do barulho, Benjamin Braddock e senhora Robinson. Hum? Hum? Hum? (Eu nem digo o que mocinhos e mocinhas de faculdade, usando meia dúzia de jargões psicanalíticos, diriam. Minha capacidade de tolerar os tolos tem, digamos assim, um certo limite.) Bem, Freud não diria nada. Sim, Freud não teria nada a dizer. A coisa parece um prato cheio para Freud, mas digo e reafirmo: tudo o que Sigmund Freud dissesse sobre esses dois, por mais brilhante que pudesse ser, teria a nódoa da impostura. Freud, que parou de trepar aos 40, ainda em pleníssima vitalidade orgânica, que era cheio de neuroses e que, parece, era boiola enrustido, não era homem o bastante para peitar uma senhora Robinson. O Benjamin Braddock, que foi lá e papou-a devidamente, ele pode, sim, contar a história, tem a autoridade, adquiriu o elixir para isso.
Aos vencedores, portanto, o microfone. Ao resto, o blablablá, blebleblé, bliblibli, bloblobló, blublublu.