
O PRESIDENTE das Organizações Venezuela, o jornalista (chamou o) Hugo (e foi, sem querer querendo, ver o) Chaves, convidou-me pessoalmente para conhecer seu país, a pátria dos canais com cheiro de bosta nos quais flutuam as famosas gôndolas de supermercado flutuantes. Para quem não conhece, Veneza é aquele lugar em que se passa o romance Morte em Venezuela, escrito por Thomas Pynchon, em que uma bichona chamada Aschenbach paga o maior pau para uma bichinha chamada Tadzio, só que aí os dois são seqüestrados por traficantes da FARC e passam 10 anos acorrentados a árvores no meio da selva, se alimentando apenas de chá de folhas de coca. O cantor Serguei, que também havia sido seqüestrado pelos traficas, logo de cara explicou para eles que a barra ali era pesada, mas que eles até poderiam vir a tirar uma limonada da situação, situação que em si mesma era, é claro, uma laranja. Tipo assim, era até provável que eles viessem a se tornar amantes da natureza, como o próprio Serguei, que, depois de anos e anos acorrentado a uma seringueira, um belo dia sentiu uma irresistível vontade de lhe dar um beijo de língua.
Comprei um exemplar de Morte em Venezuela na Livraria Varca (a livraria do leitor gordo elegante) do aeroporto e embarquei num vôo cheio de professores da USP, que me disseram que iam assistir a uma luta de classes de telecatch em Caracas. Ao meu lado no avião se sentou um ex-guerrilheiro do MR-8 que insistiu comigo que o ano de 1968 ainda não havia acabado, já que a cantora Wanderléia continuava tão gostosa como quando era da Jovem Guarda (ou seja, em 1968). Chegando em Caracas, descobrimos que não havia mais aeroporto para pousar, pois os traficantes o haviam seqüestrado e levado como refém para o meio da selva. O jeito foi pousarmos num dos canais de esgoto mesmo, de barriga. Atropelamos uns 15 gondoleiros no pouso.
O presidente Chaves (sempre eu, sempre eu, sempre eu) nos recebeu muito efusivamente e foi logo tratando de nos mostrar a principal conquista social de seu governo socialista, a frota de 20 caças supersônicos russos da marca Sukhoi, adaptados como hidroaviões, já que não havia mais aeroporto onde mantê-los. Nesse exato instante, Chaves foi informado de que o exército colombiano havia atacado um acampamento da FARC estacionado no Equador. Imediatamente declarou à imprensa chavista que se tratava de mais um ato de rapinagem dos ianques, que estavam usando seu títere Álvaro Uribe para arruinar a resistência de chuveiro ao imperialismo no continente, o que iria acabar deixando todos os sul-americanos tomando banho frio.
Então eu quis saber que luta de classes de telecatch era aquela que os professores da USP tinham ido ver em Caracas, ao que o próprio Chaves (desconfiei desde o princípio) me respondeu que ia ser uma luta entre ele e um sósia do Geroge W. Bush, que ele fora lutador de telecatch na juventude e de vez em quando ainda subia ao ringue para matar saudade. À noite fomos todos para o ginásio Simon Bolívar ver a tal da luta do Hugo Chaves, só que então os narcoguerrilheiros da FARC seqüestraram o ginásio com todos nós dentro e o rebocaram para o meio da selva, onde passamos, ao lado de Aschenbach, Tadzio, Ingird Bittencourt e o cantor Serguei, os próximos 15 anos acorrentados a árvores e nos alimentando unicamente de cocaína intravenosa.