ESCUTA só: uma vez sonhei com um telefone de disco que tinha só um número, e o sonho me deu uma sensação que acho que experimentei quando tinha oito anos, numas férias que passei em Ilhabela. Tentei entender o que uma coisa tinha a ver com a outra – o telefone e aquelas férias – e não cheguei a qualquer conclusão.

No começo desse ano, 2008, encontrei num brechó aqui perto um telefone de disco. Comprei-o, mesmo sabendo que ele não funcionava. Imaginei aquelas coisas óbvias que imaginamos numa situação dessas, tipo assim, alguém que era adolescente em 1974, que talvez tenha experimentado uma intensa emoção por intermédio desse telefone, por exemplo, um rapaz que era a fim de uma garota e um dia tomou coragem de ligar para ela e ela, oba!, foi receptiva à abordagem. Então eles se casaram em 1978, se separaram em 1991 e hoje um não pode ver o outro nem pintado de ouro.

Quando me cansei dessas histórias que o telefone me fazia imaginar, larguei-o num armário qualquer aqui de casa e nomeei-o, cheio de desprezo, de “trambolho anacrônico”.

 

 

Esse brechó aqui perto me deprime. É um depósito de coisas indesejadas – máquinas de escrever, telefones de disco, LPs de vinil, roupas, brinquedos, tudo fedorento, decrépito, encardido. Eu tenho trinta e sete anos, o que não é tanta idade assim, além de aparentar alguns anos a menos. Não deveria me identificar com esse depósito de coisas velhas e indesejadas. E, pra dizer a verdade, não me identifico. É que essas coisas todas – discos de vinil, máquinas de escrever, etc. – fazem parte do meu passado profundo. E me fazem pensar que talvez meu passado e minhas memórias tenham essa carga de morbidez e decrepitude. Não, não é bem isso que eu queria dizer. O que acontece é que às vezes sou assaltado pela nostalgia. Mesmo sabendo que a nostalgia – aí sim – é um sentimento mórbido.

 

 

Minha mãe tem dois gatos. Acho estranho o comportamento felino: gatos são superfrescos, gostam de certas rações e de outras não chegam nem perto, mas comem baratas e lambem o próprio vômito indiscriminadamente.

Um dos gatos da minha mãe só tem três patas e se chama Lars Grael.

 

 

Nostalgia não é a mesma coisa que saudade. Nostalgia é um fascínio por coisas que, com a passagem do tempo, perderam o sentido e se tornaram irrecuperáveis.

Meu mais recente episódio nostálgico se deu no ano passado, numa noite de domingo em que parei no O´Malleys pra tomar uma cerveja. Uma banda lá tocava músicas do Pearl Jam e do Alice in Chains. As pessoas que estavam no bar eram muito parecidas comigo: trintões com a mesma aparência que tinham há dez, quinze anos, ouvindo as mesmas músicas que ouviam dez, quinze anos antes. Eu me senti naquele momento como quando tinha vinte e três anos. Eu me senti eufórico.

Qual a diferença de mim aos 23 e aos 37?

 

 

Escuta essa: em 1994 me apaixonei por uma colega de faculdade. Ela não queria nada comigo, mas meu insisti em minha devoção. Ela – Raquel – era a única garota bonita que havia na turma. Eu tenho uma teoria de que se o elemento mulher-bonita-e-gostosa fosse abundante no universo, a gente não se apaixonaria. É a raridade da coisa que determina o fascínio. Acho ótima a livre-concorrência no mercado sexual: todos nós sujeitos à lei de oferta e demanda. Aquela vaca que conheci no Mackenzie, em 1994, mereceria uma competição acirrada de outras vinte e cinco beldades num espaço de dezesseis metros quadrados. Queria só ver se ela continuaria tão metida.

Talvez a diferença fundamental que há entre mim aos 23 e aos 37 é que hoje não acredito no mito do amor romântico.

 

 

Minha mãe é uma pessoa sem o menor senso da própria individualidade. Vive para se dedicar obsessivamente aos outros e para manter o chão de seu apartamento impecavelmente limpo. Seu outro gato, o que tem quatro patas, costuma ficar miando de madrugada. Pois ela sempre se levanta da cama e vai acariciá-lo, serve-lhe ração, xinga-o, amaldiçoa-o, diz que não agüenta mais suas sinfonias de miados noturnos. Um dia eu lhe disse que será um grande alívio quando esse gato morrer. Ela ficou furiosa comigo.

Parece que minha mãe precisa de fontes inesgotáveis de tormentos.

 

 

E parece que há homens manhosos que buscam em suas namoradas e mulheres uma nova mamãe. Semana passada estava no Shopping Higienópolis com minha filha. Havia uma família próxima a nós. A mulher, embora não fosse muito bonita, era muito interessante: tatuagens extremamente bem feitas espalhadas pelo corpo, sutiã preto, cuja alças, aqui e ali, apareciam, um relaxamento corporal muito sexy e, sobretudo, um autodomínio, uma segurança e uma discrição que a permitiu flertar descaradamente comigo, na frente do marido. O marido tinha um visual Los Hermanos e um ar bonachão de quem transformou a mulher em mamãe faz tempo. Senti pena dele. Seu casamento está, quer ele saiba ou não, pela bola sete. A maneira como sua mulher me olhou queria inequivocamente dizer: você sabe que poderia fazer o que quisesse comigo, e que esse bolha que está aqui a meu lado não seria o menor estorvo.

A animalidade daquela mulher não vai ficar sob rédeas curtas por muito tempo.

 

 

Senti pena daquele sujeito porque, de certa forma, já estive em seu lugar. Já estive dentro de um casamento que havia apodrecido, sem saber como sair dele.

E senti grande admiração pela segurança instintiva daquela mulher. Quando for a hora, ela vai chegar para o marido e dizer: as coisas entre nós se esgotaram, vamos nos separar. Talvez ele chore, se sinta desamparado por um tempo, talvez chegue até a odiá-la. Mas se for inteligente e não infantilizado por uma figura materna introjetada, forte, operante e opressora, não demorará a reconhecer que o que sua mulher fez foi um ato de bondade: livrou-o de ter de suportar neuroses e ranhetices e humilhações e péssimas trepadas pelo resto da vida.

 

 

Uma pergunta: a ofensa pessoal é um recurso ficcional válido?

 

 

A mulher-melancia está andando na rua, passa por um sujeito, que olha para trás e diz: abundância.

 

 

A Pamela Anderson está andando na rua, passa por um sujeito e o sujeito diz: abundância.

 

 

A Wilza Carla passa por um sujeito e ele diz: abundância.

 

 

O Bret Easton Ellis tem um conto com o seguinte diálogo: 

- Por que você não arranja um emprego? - o pai pergunta. 

- Por que você não chupa meu pau? - o filho responde.

 

 

O enxadrista guatemalteco Boris Vian conta em suas memórias que quando engravidou a Marylou Outrageous, vendeu seu tabuleiro para ter dinheiro para pagar as despesas da gestação e do parto. Quando foi levar o dinheiro para o padrasto de Marylou, o velho disse que o dinheiro não era suficiente. Então Boris xingou-o de japa ganancioso e lhe deu uma sova.

“Outrageous”, segundo Boris, quer dizer “ultrajante”.

 

 

Boris Vian foi internado num manicômio por conta dessa surra que deu no ex-sogro.

 

 

Escuta essa: o príncipe do Japão estava semana retrasada num daqueles puteiros da Rua Nestor Pestana e encontrou um grupo de compatriotas que usavam camisetas idênticas, todas com o número 32 estampado. Então o príncipe quis saber o que aquele número significava e o líder do grupo explicou: as pessoas daquele grupo descendiam de um sobrevivente de Hiroshima que, por causa da radiação, sofreu uma mutação genética que conferiu a seus descendentes caralhos com 32 centímetros.

 

 

Alguém aí sabe quem é o Richard Fariña? Eu sei. É um sujeito que escrveu um livro chamado “Tanto Tempo Numa Pior que o que Pintar Eu Traço”.

 

 

Acho que comunista é tudo idiota. Por que falam “O Partido”, e não Partido Comunista? É pra inculcar nos outros, inconscientemente, a idéia do partido único. Sou um democrata. E quero que todos os comunistas vão pra puta que pariu.

 

 

Donald Barthelme é um sujeito que escreveu um livro chamado “City Life”. Raymond Carver é um sujeito que escreveu um livro chamado “Fique Quieto, por Favor”. Robert Coover é um sujeito que escreveu uma versão pornográfica de “Branca de Neve e os Sete Anões” (quando isso ainda não havia virado clichê). John Barth é um sujeito que escreveu um livro chamado “A Ópera Flutuante”. Richard Brautigan é um sujeito que escreveu um livro chamado “Fishing Trout in America”. Breece DJ Pancake é um sujeito que escrevia contos sempre passados na Virgínia Oriental e que aos 26 anos meteu uma bala na cuca.

 

 

O Barrerito, do Trio Parada Dura, um dia resolveu que passaria a calibrar seus cabelos. Sua dúvida era se a calibragem ideal seria de 24 ou 26 libras. Com 24, ele achava que o cabelo ficava meio murcho. Com 26, retesado demais. Um dia perguntou a um frentista qual calibragem ele achava ideal. O frentista disse que, bem, uma vez que pressão é força sobre superfície, e que a pressão é inversamente proporcional à área, e sendo que o cabelo do Barrerito pesava 304 kg, tanto fazia uma pressão de 24 ou 26 PSI. Barrerito então botou 26 libras na cabeleira e foi fazer um show. No meio da apresentação, achando que o cabelo havia murchado um pouco, foi até o backstage botar mais um pouco de ar, com uma máquina que havia comprado na Rede Zacarias de Pneus. Só que errou um pouco na medida e seu cabelo ficou com 30 libras. Aí, quando Barrerito voltou ao palco e pôs-se a cantar a música Bebendo e Chorando (Quando se perde alguém/que a gente ama pra valer/ o desprezo é o maior castigo/ faz a gente chorar e beber), aconteceu o inevitável: o cabelo do Barrerito explodiu.

 

Se eu escrevesse um livro, talvez lhe desse a seguinte epígrafe:

“Gilberto deixou o tapete na lavanderia”. 

 

Ou então:

“Moças boazinhas gostam de menstruar, e moças não tão boazinhas não gostam muito de menstruar”. 

 

Quem disse isso foi a namorada do Henrique Scalet.

 

Etc.