CHEGAMOS ao prédio, a portaria estava iluminada apenas pela árvore de Natal. Apoiei a mão num dos ombros da Beatriz, não sei o que ela pensou, faz tempo que perdi a curiosidade sobre o que vai pela cabeça das pessoas, geralmente não há nada de muito interessante no que as pessoas pensam. Ficamos parados ali um tempo, sem dizer nada. Eu havia bebido, falar naquelas condições exigiria que eu me concentrasse para não enrolar a língua. Beatriz, porém, deve ter interpretado aquele silêncio meu como uma tentativa de forçar uma intimidade indevida entre nós, intimidade que na verdade nunca houve, ou que simplesmente não nos cabia mais, não sei dizer. Então subimos para seu apartamento e ela me disse, fique à vontade, vou tomar um banho, tem Gatorade de tangerina na geladeira. Liguei a TV, a apresentadora do Em cima da hora noticiava que Israel havia atacado posições do Hezbollah no sul do Líbano pelo quarto dia consecutivo. Beatriz tem eventuais explosões de anti-semitismo. Um dia armou um barraco na livraria Sêfer, disse que havia feito uma compra de mais de 400 reais, aí viu um livro que tinha uma foto de um tefilin e perguntou se poderia copiá-lo, ela precisava de um esboço para um trabalho que estava fazendo, a vendedora foi perguntar se o dono da loja autorizava, o dono não autorizou, Beatriz imediatamente começou com os impropérios, vocês estão querendo me fazer comprar o livro, seu bando de mercenários, judeu só pensa em dinheiro, se se acham tão bons e acham os goyim tão ruins, por que não vão tudo pra Israel e param de encher o saco? Nós estávamos num lugar público quando ela me contou essa história, eu sorri, tenso, e fiz um shhhh! com o dedo indicador sobre os lábios. Depois, na minha casa, eu lhe disse que ela havia sido grossa e injusta ao proceder dessa forma, que havia judeus mesquinhos e gananciosos assim como havia portugueses, suecos e guatemaltecos mesquinhos e gananciosos, que era compreensível que os judeus, por tudo o que passaram, tivessem uma suscetibilidade maior que a nossa à discriminação, que era monstruoso sugerir que as desgraças que se abateram sobre povo judeu eram o pagamento justo por eles se arrogarem de ser o povo eleito, que Israel, tá, no lance de Israel o buraco é mais embaixo mesmo, mas que se dane, os judeus deram à humanidade Freud, Einstein, Spinoza, Woody Allen, Gershwin, e o que demos nós, brasileiros, nós e nossa suposta criatividade? Um bando de crioulos batendo em tambores e chutando bolas de futebol? Ah, ah.
Agora quem tá sendo racista é você, ela disse.
Eu dei um exemplo extremo, respondi. Você sabe que eu não sou racista.
Todo mundo de vez em quando, principalmente se está com raiva, faz algum comentário preconceituoso.
Você tem razão. É verdade, eu disse. Mas se eu digo uma coisa apenas quando estou com raiva, isso significa que ela não faz parte de meus valores fundamentais. É apenas uma excrescência.
Hum. Não sei. E se... e se aquilo que a gente diz quando está com raiva for justamente aquilo que é mais verdadeiro em nós?
Você acredita nisso?
Acredito mais nisso do que nessa coisa supostamente bonitinha e certinha aí que você falou, de valores fundamentais, o bom e justo rapazinho praticando apenas o bem de acordo com seus, uau, valores fundamentais. Ah, cara, dá licença, Beatriz riu.
O.k., eu tenho vontade de sair cortando umas gargantas por aí de vez em quando. Só que, tipo, advogado criminalista cobra muito caro e, bem, eu acho que tem investimentos melhores para o meu dinheiro e lugares mais interessantes para eu passar meus dias do que numa cela com cinqüenta manos fedorentos querendo comer minha bunda. Satisfeita agora?, perguntei, rindo.
Quase. Me conta uma história verdadeira sua envolvendo racismo.
Conto. Eu trabalhava numa agência de propaganda que um dos donos era um japonês. Uma vez fiz um trabalho em que botei um peixinho nadando dento de um liquidificador, o briefing era alguma coisa do tipo está ao alcance de suas mãos preservar ou destruir a natureza. O japonês me ridicularizou, disse que a peça estava horrível, e não sei o quê. Um tempo depois o Barão Vermelho lançou o disco Carne Crua, cuja capa tinha exatamente essa imagem do peixe nadando dentro de um liquidificador.
Caramba. Será que o cara plagiou você?
Foi coincidência. Isso acontece bastante em publicidade, as pessoas, pelas mesmas associações de idéias, chegarem a criações iguais.
Entendi.
Então, aí todo mundo adorou, essa capa do Barão foi premiada e tals. E eu pensei, “Viu só, japa de merda? Por que você não foi ser dentista, por que não foi construir pontes ou fritar pastel na feira, afazeres que sua raça executa até que direitinho, em vez de ir trabalhar com propaganda? Você simula autoritariamente uma competência que não tem só porque estudou na ECA, porque, claro, você sempre foi um CDF competitivo que, é claro, entrou na USP com 17 anos, afinal, seu papai e sua mamãe incutiram em você a crença de que a vida era um grande vestibular e que toda e qualquer parada poderia ser ganha na base de testes de múltipla escolha. Bando de imbecis, de patifes hipócritas. Ficam aí, dando uma de grandes disciplinadores, de honrados, depois vão lá encher a cara e barbarizar nos puteiros da Nestor Pestana. Por que quê, em vez de duas, os Estados Unidos não jogaram vinte bombas atômicas no Japão?”.
Caramba. Você realmente odeia os japoneses, Beatriz riu.
Eu não odeio os japoneses. Eu apenas fui ofendido e humilhado uma vez por um japonês e, como perfeito animal humano que sou, com meus atavismos tribais, imaginei uma reparação a essa ofensa pessoal me vingando da coletividade de que fazia parte meu ofensor.
Não vem que não tem, ô, seus olhos brilharam enquanto você dizia esse troço aí, o que prova que no fundo você é um bárbaro com uma imensa propensão ao ódio e aos métodos de extermínio em massa, Beatriz gargalhou.
Eu ri também e disse, não, baby, isso prova que, sim, que podemos ter uma inclinação para o mal e para a barbárie, mas que podemos fazer, sempre, a escolha moral de não ceder a essas tentações.
Pois sinceramente eu acho que a gente, sempre, tem que queimar tudo até a última ponta.
Beatriz, você é uma nietzschiana, mesmo sem ter lido sequer uma linha de Nietzsche na vida.
Como você sabe se eu li Nietzsche ou não?
Pois é, eu não sei. Você leu Nietzsche?
Não. Mas, tá, eu sou uma nietzschiana. E você, é o quê?
Eu sou um personagem do Philip Roth. O Alexander Portnoy.
Alexander Portnoy. Fale-me sobre o Alexander Portnoy.
Alexander Portnoy era um cara com uma animalidade, uma sexualidade quase incontrolável e com uma necessidade imensa de moralizar essa animalidade, necessidade que partia em parte dele mesmo, em parte dos valores familiares, tradicionais e religiosos que fizeram parte de sua formação.
Religiosos. Ele era judeu?
Sim, era.
Ah, ah. Certo. E?
Por outro lado, o Alexander Portnoy sentia que tudo isso, essa pressão da moralidade, o estava impedindo de ser um homem de fato adulto, dono dos próprios atos e desejos. Então, ao mesmo tempo em que ele tinha a necessidade de dar um sentido moral a seus impulsos, desejava romper com toda essa cadeia de proibições, inibições e autopunições. Pulsão do id versus força coercitiva do superego. Freudianismo básico.
Hum-hum. E aí?
Aí ele conhece uma mulher que o lança numa paixão sexual avassaladora, uma mulher que ele não consegue chamar pelo nome verdadeiro, uma mulher com uma animalidade tão absoluta que ele só a consegue chamar de Macaca.
Ah, ah!
Pois é. Ele fode bastante com a Macaca. De tudo que é jeito. Aí um dia a Macaca pede a toalha e diz que está começando a se sentir velha e que quer casar e ter uma vida decente e produtiva, etc. E o Alexander foge covardemente dela e vai se esconder em Israel. Vai lá, tentar se achar entre os seus. Afinal, as shiksas, as não-judias, servem para foder, não para casar.
Filho-da-puta. Hum. E aí?
Aí ele se mete com uma garota que está servindo exército, uma garota ultrapatriota, que trepa como se estivesse atirando nos egípcios na Guerra do Yom Kippur, ele não curte a experiência, começa a achar Israel um lugar claustrofóbico e doentio, volta para New Jersey, tem um colapso nervoso e desaba no divã do doutor Spielvogel.
Interessante. Muito interessante. Posso te fazer uma pergunta?
Claro.
Eu por acaso sou a Macaca na sua vida?
Sem dúvida nenhuma. Você está me transformando, eu, um homem com uma imensa necessidade de moralizar a própria animalidade, numa criatura insuportavelmente lúbrica e indecente.
Mas estou ajudando você também a se libertar das amarras morais que o impedem de ser quem você realmente é, não?
Sim, está.
Em que posição você gosta mais de me comer?
De frente. Gosto de tirar o pau de dentro de você e ver minha porra se espalhar no seu ventre e nos pêlos da sua boceta.
Hum. E depois?
Gosto de lubrificar meu dedo com a porra e enfiá-lo no seu cu.
O que mais você gosta de fazer comigo?
Gozar na sua cara. Não na boca, na cara mesmo. Você deitada, se masturbando, eu de cócoras sobre seu peito, me masturbando também.
Hum. Você vai fugir pra Israel que nem o judeuzinho filho-da-puta lá, depois de me comer bastante?
Não sei. Às vezes tenho a tentação de fugir de você, sim. Admito.
Admiro sua franqueza e honestidade.
Eu admiro a sua também.
Mentira. Você recriminou meu barraco lá na livraria.
Recriminei. Mas não deixo de achar admirável você verbalizar coisas que as pessoas podem até pensar, mas que ocultam hipocritamente.
Eu quero foder com você.
Tá. Mas antes deixa eu te fazer também uma pergunta.
Hum-hum. Pode fazer.
Você me perguntou se eu ia fugir depois de te foder bastante, eu disse que talvez fizesse isso.
Tá.
E você, você acha que nunca vai ter vontade de fugir de mim?
Hum. Eu posso te responder que agora, nesse exato instante, eu não tenho intenção nenhuma de fugir de você.
Hum-hum. Mas isso pode acontecer um dia, não?
Um dia? É, talvez um dia aconteça. Quem sabe um dia eu faça esse servicinho sujo para você. Te dar o fora, assumir o papel de algoz, te entregar de bandeja o papel de vítima. Agora vem aqui me comer. Vem.
Beatriz saiu do banho e foi para o quarto se vestir. Zapeei a TV, a Bia Correia do Lago entrevistava um escritor da patota da fulana que pediu minha cabeça na imprensa – a coisa começou com uma leve polêmica, a mulher então foi com a carga toda pra cima de mim e eu escrevi na coluna que eu tinha na época numa revista que eu não podia continuar discutindo com "uma velha maconheira que vivia em permanente estado de psicose tóxica". Levantei do sofá, fui até a cozinha e espiei o que tinha na geladeira. Cogitei pegar uma taça do chardonnay argentino que estava ali, mas como havia bebido uísque e vodca na festa achei prudente não ingerir nada fermentado depois. Beatriz veio do quarto carregando um travesseiro e um edredom, os colocou sobre o sofá e me disse, fica à vontade, você sabe que a casa é sua, tem uma escova de dentes fechada lá no banheiro, se quiser tomar banho também é só pegar uma toalha naquele armário pesado do corredor, sabe qual é?, então, eu vou deitar, tô com uma enxaquecazinha estranha, acho que é começo de menstruação, não, cólica, não, só uma coisa meio enjoada aqui no ventre e essa sensação de peso nas pálpebras, bom, então é isso, boa-noite.
Boa-noite, Beatriz. Durma bem, respondi.
Acomodei-me no sofá e continuei mudando os canais. Fui procurar algo para ler, mas Beatriz tinha desocupado a estante que havia no quarto de empregada, onde, na última vez que havia estado ali, mais ou menos um ano e meio antes, ela guardava seus livros. Achei na sala apenas Os Mestres Ascensionados da Grande Fraternidade Branca, em cuja capa havia o desenho de um sujeito que era uma mistura do Walter Mercado com o John Travolta. Voltei para a cozinha, bebi um copo d´água. Senti meu maxilar tremer, fechei os olhos e tive vontade de arremessar o copo contra a parede. Puta que pariu. Por que eu fui inventar aquela desculpa idiota para ela se sentir meio que na obrigação de me convidar para dormir aqui no apartamento dela hoje? Pensei na Juliana, que namorei durante quase um ano, logo após ter dito à Beatriz que eu não suportava as sensações que ela provocava em mim – que ela era tão maravilhosamente tesuda que eu simplesmente não conseguia tolerar sua proximidade física, que eu demorava quase uma semana para voltar ao meu eixo depois de trepar com ela, que ficava num barato estranho, mais sensível à luz, com uma sensação incrível de irradiação no chacra coronário. Que, apesar disso tudo, não ia dar pra rolar nada entre nós, naquele momento da minha vida, pelo menos, não. (Seu grandessíssimo idiota auto-sabotador.) Juliana, cujo sexo medíocre me dava o prazer de estar em uma situação que eu podia controlar como quisesse, só que então eu comecei a sentir um tédio mortal dela, de suas conversas burras e convencionais, de seu beijo duro e sem ritmo, de seus não-me-toques todos, de sua inexplicável recusa a que eu a chupasse, de sua mania de querer compensar isso tudo me cumulando de paparicos infantis, de minha horrível sensação de culpa por sentir raiva dela, por ela, sem querer, conseguir manipular minha imensa propensão ao remorso, sua desgraçada, eu não vou permitir isso, tá entendendo? Eu já fui explorado emocionalmente o bastante nessa vida e isso simplesmente não vai acontecer comigo de novo! Nunca mais! Chega! Então eu comecei a sair com uma mulher atrás da outra, sempre fantasiando que a Beatriz estava numa espécie de hibernação, numa espécie de stand by, e que bastaria eu clicar “on” no controle remoto para que a luzinha vermelha se apagasse e ela surgisse de novo na tela da minha vida, me dizendo: venha.