O BRASILEIRO é um trágico às avessas. E o nosso teatro é o mais irrealizado de uma arte que já é, em si, a própria irrealização. Explico-me: – o autor escreve para adular o público e, assim, torna-se co-autor de duzentas senhoras gordas, comedoras de pipoca. E vamos e venhamos: – o senso dramático dessas respeitabilíssimas senhoras tem a profundidade de uma piscina de lona e a agudeza de um punhado de purê de batata. Mas não era de gordas comedoras de pipoca que eu queria falar hoje. Queria falar sobre o rapaz de São Paulo que nesse exato instante mantém refém a amante, na presença da mulher, e exige a presença do marido da tal amante para desculpar-se dele por tê-la engravidado. Tudo isso, claro, com a presença da polícia e das câmeras de televisão. Oras, eis uma história que, passada longe do olhar público, dificilmente conseguiria escapar de um desfecho trágico. E o que fez o autor – corrijo-me: – o rapaz – senão solicitar o auxílio de duzentas gordas palpiteiras para esvaziar toda tragicidade de seu destino? Que ele esteja salvando a própria pele de um triplo furor homicida, vá lá. Mas pressinto nisso tudo algo mais fundo: nossa atual intolerância à dor. Para nós, a dor se tornou algo a ser tratado a pauladas, feito uma ratazana prenha.

E volto, com isso, a uma de minhas atuais obsessões, o Eduardo Haak. (Como vêem, não deixei de ser uma flor de obsessão.) O raquidiano, o anestesiado escriba, que supõe ser possível enxergar o mundo de seu posto de observação no Shopping Iguatemi (O Shopping Iguatemi é um Hermitage para vira-latas, para pés-de-chinelo), pôs-se a criticar meu trabalho e a alegar uma amizade entre nós que o autoriza, inclusive, a me tratar pela alcunha de Cabeção. Nem tanto, nem tanto. Eduardo, ao contrário dos vilões do cinema mudo, que tinham olheiras feitas com rolha queimada, tem olheiras próprias, cavas e ressentidas olheiras. Eis o que eu quero dizer: – nenhum escritor chega a qualquer lugar se não enfrentar o incriado, se não ousar ocupar, com meios próprios, as Sibérias, as Amazônias inabitadas do território ficcional. E Eduardo, que tem olheiras próprias e olhar rútilo próprio, é o primeiro a enxovalhá-los, dedicando-se a atacar as fraquezas e as irrelevâncias alheias, como se isso o fizesse relevante. Todo seu empenho, lamentavelmente, não passa de um fútil exercício de autoglorificação invertida. (Ele, sabendo que só li Dostoievsky – além de Maria Cachucha –, apresentou-me um certo Breast Eaton, ou Easton. Sim, creio que seja Breast Easton mesmo. Pois eu li o autor do novo pretenso Raskolnikov. E digo: – sim, certamente devo ser uma múmia, devo ser um velho, velho como o assassinato do Pinheiro Machado e mais fora de moda que o primeiro espartilho da Sarah Bernhardt, mas o fato é que achei que Breast Easton não passa de um anestesiado escriba, assim como Haak. E assim como o rapaz que, com o auxílio de uma obscena e promíscua multidão, quer pedir desculpas ao marido da amante que ele engravidou.)

Estava aqui lembrando de uma história que já contei e recontei várias vezes. (Como bem lembrou Haak em seu artigo, creio que todo homem tem três ou quatro obsessões que leva do berço ao túmulo.) Pois bem, pois bem. Um dia uma conhecida da Lúcia ficou viúva e o destino veio bater em sua porta: um amor remoto, na verdade seu primeiro, único e verdadeiro amor, novamente apareceu em sua vida. Porém agora ele era um homem casado. A viúva acabou por se confessar, o homem também disse que sempre gostou dela, mas não queria romper sua relação. E a tratou, em todos os encontros que tiveram, com um casto – com um eunuco, eu diria – respeito. O que isso pode significar? Oras, um homem só procede assim quando gosta demais ou quando gosta de menos. A verdade é que, em amor, ninguém tem o direito de exigir nada, absolutamente nada. (Não sei se me fiz entender. Se não fiz, paciência.)

Acaba de sair na internet a notícia de que o rapaz matou a amante grávida e cometeu suicídio. Não, não vou tomar a palavra aqui como um apologista do tresloucado gesto. Mas noto, não sem surpresa, que talvez ainda haja gosto por vocações trágicas que se cumprem da cabeça aos sapatos. Porque o que esse rapaz fez – nem tão rapaz assim: – 42 anos –, à revelia de tudo a que nos acostumamos chamar de teatro, das duzentas gordas mastigando piruás, das lésbicas dos óculos estranhos que escrevem teses sobre dramaturgia, o que esse rapaz fez, sem qualquer concessão às hordas ululantes, foi a grande e trágica encenação de seu próprio ato final. Foi um Sófocles de si mesmo.