O SAXOFONE é o Wando dos instrumentos musicais. Pra quem não sabe, Wando foi um cantor muito popular nos anos 70 e 80. Era uma espécie de catalisador dos anseios de donas-de-casa por coisas indecentes e suas músicas tinham tanto bom-gosto e distinção quanto um balcão de fórmica de botequim. Pois bem. O saxofone talvez seja único instrumento que, por deméritos próprios, é capaz de dar a qualquer melodia um quê de licenciosidade barata. Kenny G com seus cabelos tóin-óin-óin são o exemplo extremo disso que estou falando. Não foi à toa que o Sílvio Santos, que entende desses riscados, escolheu suas músicas como trilha sonora para o “é namoro ou amizade?” dos mocorongos que iam a seu programa, nos anos 80 e 90.

Mas minha teoria seria meio falha se se restringisse ao exemplo do Kenny G. Já vejo os jazzistas tirando os Charlie Parkers e os John Coltranes e os Paul Desmonds e os Ornette Colemans dos bolsos de seus coletes e, antes de mais nada, lhes respondo: caros senhores, o fato de eles serem, evidentemente, músicos muito superiores ao mocinho dos cabelos tóin-óin-óin não muda o fato de que o instrumento que todos eles tocam é intrinsecamente vulgar. Quando ouço o Paul Desmond e seu sax “dry martini”, a coisa me sugere, quando muito, uma putaria nouvelle vague, com fotografia p&b, Jean-Paul Belmondo com um Gauloise fumegando no canto da boca e uma Jean Seberg qualquer a tiracolo. Daí para a putaria sugerida pelo Kenny G – suíte 69 do motel Disco Verde, Shirley e Robson, "É namoro, Lombardi-eam!", etc. – a diferença é meramente de gradação, não de natureza. O nome disso, camarados e camaradas, é estigma.

Estigma, pois é, pois é, pois é. O acordeão, por exemplo, tem o estigma da caipiragem. Não tem Guy Klucevsek & Bantam Orchestra que me faça pensar diferente. Se ouço um acordeão, já penso em “sanfoneiro”, em festa junina, em “olha a cooooobra!”. Da mesma forma, não tem Heitor Villa-Lobos e Andrés Segovia capaz de tirar do violão o estigma do “toca Raul”. Órgão Hammond? Puro Vincent Price em Doutor Phibes. O Mini Moog é uma bad trip, sempre. O Yamaha DX-7 me faz pensar na banda de apoio do Lulu Santos nos anos 80 e em lixos do jazz-rock, como Samoa, Spyro Gyra e Lee Ritenour. Já, em contrapartida, o piano é um instrumento meio difícil de ser avacalhado. Mesmo sob os dedos de seus usuários mais chinelões, como o Liberace e nosso querido Pedrinho Mattar, o piano sempre tem uma imponência semelhante à de uma aristocrata, uma Gloria Von Thurn und Taxis qualquer da vida, que, por mera farra, tem uma condescendência momentânea para com um jardineiro gostosão.

Estava pensado aqui: já pensou se o Liberace, em vez de pianista, tivesse escolhido tocar saxofone? Se pá o Wando o chamaria para tocar em seu conjunto. Não, pensando bem, não. Acho que o Wando, nem de farra, é o tipo de cara que teria condescendências momentâneas para com bichas loucas do naipe do Liberace. Mucho macho, meu!