ÉDIPA Maas era uma jovem e pacata dona-de-casa de um subúrbio de Los Angeles. Um dia recebeu uma notificação de que havia sido nomeada inventariante do espólio de um ex-namorado, um tal de Pierce Inverarity. Não, não havia nenhuma razão para que tal coisa se desse - tudo levava a crer que Pierce, um gozador, fizera aquilo por brincadeira. De qualquer modo, Édipa resolveu encarar o desafio. Foi encontrar-se com o co-inventariante do espólio, um advogado chamado Metzger, num motel chamado Morada de Eco. Metzger fora, em idos tempos, um ator-mirim chamado Baby Igor. Os funcionários do motel eram quatro rapazes que se vestiam como os Beatles, falavam com sotaque britânico (de araque) e tinham uma banda chamada Os Paranóicos. Bem-vindos, leitores, ao estranho mundo de Thomas Pynchon.

O que se dá a partir de então é que Édipa, na medida em que se enfronha nos negócios de Pierce, vai descobrindo sinais cada vez mais evidentes (evidentes pelo menos no contexto delirante e paranóico criado por Pynchon) de que uma organização chamada Tristero, surgida no século XVI para combater o sistema de correios Thurn und Taxis (a família Thurn und Taxis deteve o monopólio dos serviços postais na Europa por mais de quinhentos anos) ainda estava, em 1966, atuante nos Estados Unidos. Operando agora como M.O.I.T.A. (Movidos Pelo Ódio o Império de Tristero Aguardaremos), mantinha um sistema de correios clandestino, usado por freaks, tarados e esquisitos de toda sorte. Seu símbolo era uma trompa postal com uma espécie de surdina. Dava pistas de sua atuação, servindo-se de pequenas incorreções propositais nos selos e carimbos que usava, aparentemente idênticos aos dos correios oficiais.

Um dos momentos mais importantes do livro é quando Édipa assiste a uma peça chamada A Tragédia do Mensageiro, na qual há uma passagem que diz, "Não há fada madrinha que proteja, quem cruza com os caminhos de Tristero". Édipa vai pesquisar e descobre que esse verso não consta da versão impressa da peça. Há uma nota de rodapé dizendo que o verso sofreu inúmeras supressões e modificações desde que Richard Wharfinger o escrevera, no século XVII. Édipa vai procurar o diretor da peça, pergunta de onde ele tirou o verso com a palavra Tristero usado na encenação. O cara desconversa. Poucos dias depois, quando Édipa vai procurá-lo de novo, ela descobre que o teatro foi demolido. O diretor, baubau: sumiu, ninguém sabe, ninguém viu.

Édipa, então, fica obcecada para descobrir se de fato essa organização chamada Tristero existe ou se tudo não passa de uma alucinação sua, um agudíssimo surto paranóico. 

Pierce tinha, em sua coleção de selos, um álbum apenas com falsificações. Um filatelista chamado Genghis Cohen, que fora contratado para avaliar a coleção de Pierce para fins de inventário, descobre que muitas dessas falsificações possivelmente são selos do sistema Tristero. Tal tese é reforçada porque esses selos, que estão sendo leiloados, receberam um lance de um licitante que quer se manter incógnito - provavelmente um membro do Tristero que quer tirar de circulação aquelas provas todas da existência da organização. Na última hora, o tal licitante resolve comparecer pessoalmente ao leilão. É a chance que Édipa tem de passar a história a limpo e certificar-se de que realmente não está lelé da cuca.

O livro é uma delícia de se ler. É engraçadíssimo. Há um consenso de que ele é uma metáfora da entropia, um conceito que imigrou da física para as ciências sociais e que mais ou menos postula que o universo - a ordem, o cosmo - perde constantemente a energia que o mantém coeso, cedendo espaço para a desordem, o caos, a indiferenciação. O Tristero representaria justamente essas forças do caos, que, abrigando em seu seio segmentos sociais marginalizados, corrói, numa luta oblíqua e não-declarada, o sistema oficial, seus valores, seus pilares de sustentação, sua força.

É também o livro em que o talento de prosador de Thomas Pynchon se manifesta melhor. Acho seus outros trabalhos, especialmente "V." e O Arco-Íris da Gravidade, ilegíveis, pedantes, impenetráveis. O Arco-Íris tem umas oitocentas páginas, digressões dentro de digressões, uns cinco mil personagens. Não dá pé, não funciona. Já em o Leilão Pynchon acertou na medida - é um livro curto, narrado com a exuberância típica de sua prosa e, fundamental, Édipa vai conosco da primeira à última página. Para o tipo de material que ele explora, o delírio, a paranóia, o estranhamento, acho sine qua non que ele se centre em um único protagonista. Em Vineland, romance lançado em 1990, ele quase consegue isso, essa unidade, mas chega um momento em que a história perde o pé - em que o caos, entropicamente, entra em cena e vence a parada.

Harold Bloom incluiu O Leilão do Lote 49 (The Crying of Lot 49, lançado em 1966, quando Pynchon tinha 29 anos) na lista dos melhores romances já escritos em língua inglesa. 

Tô com o Harold e não abro.