
OUTRO dia consegui entender um pouco melhor uma certa cisma, uma certa prevenção que tenho com o pessoal do interior de São Paulo. Fui até a Boogie Disco gastar um pouco meus tímpanos e testar até que ponto me tornei um convicto abstinente sexual. (Sim, faz alguns meses que parei de transar. Canalizo toda minha libido para o estudo exaustivo e diário de Eugene´s Trick Bag, do Steve Vai.) Então, esse dia na Boogie só tinha gente que fala porrrta. Minha primeira reação a esse povo, confesso, é de desprezo. Ô gentinha, ô gentinha. Os caras, uns grossos, vulgares, burros, machistas, putanheiros, beberrões, drogados bandeirosos e cheios de sempre querer arranjar treta. As garotas, umas cafonas que oscilam entre a putaria desabrida e a pudicícia fajuta da moça de quer casar, tipo assim, dá o cu para continuar juridicamente virgem. (Eu sei que estou sendo ultrajante. Meus amigos do interior, porém, provavelmente decidirão continuar meus amigos ao término da leitura desse texto.) Esses caipiras, em suma, reforçam minha convicção de que, quando deixado com as rédeas soltas, o que o ser humano consegue fazer é, quando muito, excretar mijo, merda, porra, vômito e lágrimas, escrever livros ruins, tocar mal instrumentos musicais (cantar pior ainda), se conservar em empregos que se sustentam na base “idiotas persuadindo idiotas de que a idiotia que os une não é tão idiota assim” e dar opiniões fúteis sobre assuntos irrelevantes. Os caipiras fazem tudo isso sem medo de ser feliz, sem qualquer constrangimento, sem se pautar ou se deixar inibir por qualquer paradigma civilizatório. Não negam a própria animalidade, a própria demência – são meio que personagens involuntários do Nelson Rodrigues. Podem ser, portanto, até que divertidos (isso se contemplados a uma certa distância). O fato, porém, é que nós, urbanóides paulistanos, embora sejamos mais civilizados, mais hypes, mais up-to-date, somos muito piores que os caipiras. Porque somos presunçosos (achamos que já vimos todos, todos os filmes, várias vezes) e não temos graça nenhuma. Não, na verdade nosso buraco é mais embaixo: vivemos psicoticamente “na nossa”, não temos mais qualquer relação real com o resto da humanidade. Uma vez o Nelson Rodrigues escreveu uma coisa que no primeiro momento achei tola, a típica visão estereotipada dos brasileiros sobre quem é de São Paulo: “Não há pior forma de solidão do que a companhia do paulistano”. Mas o pior é que é verdade. São Paulo, ao contrário do resto do Brasil, optou pela obsessão empreendedora, pela excelência, pela realização concreta, pela objetividade, à custa, é claro, de uma gigantesca repressão instintiva. Nos negamos a ser índios: o bicho humano é falho demais para nós.
Lembrei do relato que Jung fez sobre, se não me engano, a Tunísia: um lado dele se sentia superior por ser um europeu civilizado em meio daqueles sarracenos primitivos e malucos, com um jeito meio bárbaro de ser. E um outro invejava a intensidade de vida, a vida orientada pelos afetos daquele povo. (O erro, talvez involuntário, do Jung foi ter dado a qualquer imbecil uma dimensão mítica. Que arquétipo domina o inconsciente do, digamos assim, Fausto Silva? O arquétipo do gordo bolha?) Mas Jung, assim como eu, sabia que estava num “se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”. Não podemos mais abraçar ingenuamente a vida “pura”, primitiva, instintiva, embora a civilização extremada nos faça babar de ódio e frustração. O que fazer? Os caipiras da Boogie, com aquela agressiva ostentação de vulgaridade, de alguma forma ainda acreditam na vida. Querem assimilar e ser assimilados. Reagem, porque não são indiferentes às ações que sofrem, e agem, porque se acreditam capazes de motivar reações. Vêem nisso, com justeza, um apelo à essência que nos define como seres humanos. Nós, urbanóides, com nosso esgotamento e nosso bode entrópico, não temos qualquer apelo vital. Portanto, na próxima vez que eu cruzar com um bando de caipiras prometo que tentarei ser menos cruel em meus juízos. Não que eu acredite muito na humanidade, de um modo ou de outro. Só que eu acredito ainda menos numa humanidade que se tornou completamente incapaz de ser provocadora.