"EUZINHA? Ah, gosto de ir com a galera da facu pra balada, amo de paixão minhas miguxas, sou romântica e sensível, meu gosto é eclético, só não gosto de axé, pagode e sertanejo. Amo minha vida, amo estar em contato direto com a natureza e amo colocar minhas fotinhas no fotolog. Aliás, já baixei lá as que tirei no meu níver. Gostou de mim? Então pega a senha porque a fila anda (huauauhuauauhua). Vlw! Fui!”

A diversidade de tipos humanos. A predominância absoluta de tipos que compartilham esse modo de pensar. Nada intrinsecamente contra um modo de pensar ou outro. Cada um é o que pode ser e talvez ninguém tenha culpa de ter nascido burro e sem o menor senso do ridículo. De certa forma, acho isso fascinante e miraculoso. A burrice e a obtusidade, certas manifestações suas, me fascinam. Se elas são o fiel da balança da humanidade, deve haver algum propósito cósmico nisso. A burrice encerra em si uma plenitude que julgo ser afim com o conteúdo de certas vivências supostamente espirituais, em que não se sente mais a separação entre parte e todo. Quem toma LSD costuma dizer, entre outras cretinices, que se sente fundido com tudo o que existe e que consegue enxergar – carácoles! – até Deus. Deus, o big boss cósmico, deve ter alguma predileção especial por seus filhos de poucas luzes. Afinal, bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles etc., etc.

Eu, um dos filhos até que iluminados do big, acho que a vida é um desafio inglório contra o marasmo, o tédio, a futilidade. Meus primeiros anseios revolucionários frutificaram, aos nove, dez anos, nesse terreno do taedium vitae. Sim, muito cedo notei que a vida era permeada de vulgaridade e irrelevância. Naquela época, dizia-se que os burgueses é que eram os culpados pela coisa. Era crível, de alguma forma. Os burgueses da minha infância se achavam muito bacanas porque dirigiam carroças infames como Opalas e Corcéis, bebiam uísque Natu Nobilis, usavam colônia Gelatti achando que era o non plus ultra em matéria de perfumaria, se convenciam através do padre Quevedo de que certas coisas “non eczistiam”, pagavam tributo a Eros lendo as safardanagens do Harold Robbins e se debulhavam em lágrimas com as novelas da Janete Clair. Pau na burguesia, então! Foice e martelo nela! Pois é, pois é, pois é, como diz a Chiquinha, do Chaves. O comunismo tem uma simetria, uma gestalt, irresistível para crianças. Daniel Cohn-Bendit fazendo caretas pro guardinha naquela foto célebre do Maio de 1968 era quem/onde/como eu queria ser quando crescesse.

O Olavo de Carvalho está escrevendo um livro chamado A Mente Revolucionária e, pelo título, acho que acertou no paiol. O comunismo foi apenas uma das formulações históricas, temporais, de um dado maior: o anseio pela subversão dos valores de uma vida que alguns de nós experimentamos, sabe-se lá por que, como terrivelmente insatisfatória. Porém, contudo, entretanto: o que fazemos se não acreditamos mais em infantilidades atrozes como subversões, se não toleramos tipos cabeça chegados numa maconhinha e em “programas culturais”, se odiamos o PT e o efelentífimo e a corja toda, se experimentamos asco ao nos deparamos com a figura desse aspirante a lutador de telecatch desse Hugo Chavez, mas continuamos achando a humanidade comum, a “ordem burguesa”, a moral judaico-cristã, a cultura clássica, a democracia representativa, etc., um tédio federal, e pluribus unum? Viramos neoconservadores ranzinzas, criamos um (wunder)blog pra destilar nosso rancor e nossa impotência? Aí é que está: o neoconservadorismo não tem vitalidade própria – ele é derivativo da falência de ideologias revolucionárias. Em todo neoconservador há um revolucionário frustrado ou arrependido. (Percebi que havia virado de vez um neoreaça quando gargalhei com uma tirada do coronel Erasmo Dias. Acho que ele estava falando sobre o episódio da invasão da PUC, em 1977, quando disse, “Estudante? Pra mim estudante usa lápis, borracha, caderno, não pedras e fuzis”. Grande Erasmo. A quem tem razão, as batatas e os louros todos, sempre.) Estava falando em neoconservadorismo. Pois bem. O maior e talvez mais paradigmático dos neoconservadores brasileiros morreu há exatos dez anos. Seu nome era Paulo Francis – ou, para os íntimos, Franz Paul Tanner Heilborn. Lembram de um cara que falava no Jornal da Globo parecendo ter uma batata quente na boca? Entonce.

Francis foi o grande mentor da minha geração. Foi ele quem nos introduziu ou familiarizou a nomes como Philip Roth, T. S. Eliot e W. B. Yeats (uma de suas citações mais recorrentes, “Os melhores não têm convicção alguma, e os piores estão cheios de intensidade passional”); foi ele também quem abalou nossa credulidade sonsa de que a esquerda tinha uma superioridade moral, cultural e intelectual intrínsecas, praticando – talvez sua maior contribuição – um jornalismo idiossincrático, o qual líamos com a deliciosa sensação de estarmos trocando idéias com um chapa, um camarada nosso. A pessoalidade e o senso de humor de Francis eram muito cativantes – os apodos que inventava, por exemplo, eram hilários: Mogadon (Eduardo Suplicy), Lagartixa Pré-Histórica (Caio Túlio Costa), Ferdinando Buscapé (Bill Clinton, de quem Francis também dizia ter “cara de vitela podre”), Lavador de Carros (Hosni Mubarak). Isso, esse imediatismo, nos poupava de muito lero-lero e botava as coisas nos pratos em que ansiávamos que elas estivessem. Francis era o nosso fornecedor de geniais short cuts para que chegássemos à tal da verdade.

Se Francis era um mestre nessas epifanias instantâneas, nesse modo pá-pum de ser, quando trabalhava com um pouco mais de recuo já não funcionava com o mesmo brilho e precisão. Seus artigos mais sérios e supostamente embasados são contaminados demais pelos achismos e ilusões que estavam em voga na época em que foram escritos. Francis acreditava demais na própria inteligência, o que, paradoxalmente, não é necessariamente bom para um crítico. Nada disso, por certo, o impediu de vez ou outra escrever artigos brilhantes e perenes, como Cavaleiros Andantes, em que ele analisa o filme Easy rider (Sem destino, dirigido por Dennis Hopper, USA, 1969), situando-o dentro das linhas antagônicas que formaram o que se pode chamar de consciência dos EUA – de um lado os puritanos e sua rejeição a qualquer prazer sensorial, do outro, o apelo selvagem e irrestrito simbolizado pelo continente americano. Tal artigo está no livro Certezas da Dúvida, publicado em 1970 pela editora Paz e Terra. Esse e seus outros livros de artigos, Opinião Pessoal de Paulo Francis (Civilização Brasileira, 1966), Paulo Francis Nu e Cru (Codecri, 1976) e um livro de artigos publicados na revista Status do qual não me recordo título e ano de publicação por certo mereceriam formar uma coletânea.

Ontem à noite, deitado no sofá da sala aqui de casa, reli vários Diários da Corte, todos datados de 1993. Num deles, Francis fala sobre o filme Seis graus de separação, discorrendo sobre a fraude do politicamente correto, em que um negro (Will Smith) se faz passar por filho do ator Sidney Poitier e é acolhido por uma família branca e liberal do Upper East Side. Fraude, sim, pois tudo não passa de uma operação de chantagem (de Will) e de condescendência motivada por culpa (da família rica e branca). Fala sobre o caso de um padre que havia sido preso por seduzir um garoto de 18 anos (“Se alguém de 18 anos se deixa sodomizar, ou é porque gosta, ou porque não liga”), desce o sarrafo na Camille Paglia por ela estar encenando Esperando Godot em Sarajevo, tendo cometido a suposta originalidade de pôr apenas mulheres no elenco, comenta o “escândalo” Heidi Fleiss, uma cafetina que fornecia mulheres para ricos e famosos, dá estocadas na Petrobrás e seus fundos de pensão (briga que, segundo consenso de seus simpatizantes, levou-o ao enfarte fatal, em 4 de fevereiro de 1997), implica com a filha do Lula, que estava estudando em Paris, à custa – segundo Francis – suspeita, fala sobre oitocentas ligações feitas à Suíça do gabinete da prefeitura de São Paulo (governo Luíza Erundina), “Não é assim que se vigia conta numerada, mas vamos dar um desconto ao amadorismo dos petelhos”, e, creme de la creme: Francis está num restaurante em Manhattan. De repente, se dá conta de que o pessoal de uma mesa próxima é brasileiro. Diz: antes de 1964 essa gente não viajaria nem até Niterói, houve uma mobilidade social inegável de lá pra cá. A brasileirada faz comentários sobre Cats, espetáculo da Broadway que haviam visto no dia anterior. Francis: devia estar incluído no pacote turístico, duvido que fossem espontaneamente torrar 60 dólares num ingresso, já que com essa grana dá pra comprar um monte de badulaques de camelô aqui em Manhattan. De repente, uma das brasileiras diz que a viagem acabou para ela. Acabou? Mas como? Sim: depois de uma coisa tão sublime como Cats, o que mais poder esperar da vida? (Será que não era a euzinha-miguxa, não, que estava em noviorque, em 1993?) Paulo Francis: “Fulano de tal (eu, Eduardo, esqueci agora quem) disse que a humildade é, das virtudes, a mais difícil de ser praticada. Eu não acho. É a compaixão”.

Meu deu um certo banzo da década de 1990, confesso. Waaal...