MEUS olhos estão fechados. Tenho a impressão de ouvir, a certa distância, uma algazarra típica de porta de colégio em horário de saída, embora não consiga me lembrar de nenhuma escola suficientemente próxima aqui do apartamento de Sabrina. Eu e ela estamos no quarto, nus, deitados, e o sol de fim de tarde reforça em mim toda uma cadeia de sensações deliciosas – sensações ligadas à proximidade de nossos corpos, minhas boas notas na faculdade, o fato de eu ter vinte e um anos e estar cheio de planos interessantes a curto, médio e longo prazo, etc. O ruído da tropa de ginasianos eufóricos continua a me intrigar e então, erguendo um pouco o rosto do travesseiro, digo:

– Sabrina?

Sabrina permanece imóvel por algum tempo, até que mexe um dos braços e emite uma nasalada e breve interjeição. Acaricio suas costas, tentando forçá-la a uma reação corporal mais significativa, o que não ocorre. Por causa disso, decido levantar da cama sem lhe fazer nenhuma pergunta.

VOU à cozinha e preparo um Twinings English Breakfast Tea. Sento à mesa, despejo um saquinho de Zero Cal na xícara e começo a mexer, alternando os sentidos horário e anti-horário. Reparo, através de minha imagem refletida na parte lateral da lavadora de louças, que meus cabelos estão no ponto certo – naquele ponto em que já perderam a aparência de recém-cortados.

OUÇO Sabrina entrar no banho.

TUDO entre mim e ela começou em março desse ano, na sexta-feira que antecedeu o carnaval: saímos do Mackenzie e fomos a pé ao La Villette. Ficamos lá, batendo papo até mais ou menos meia-noite. Depois, nos dirigimos ao apartamento dela, na Rua Aracaju, sob pretexto de eu pegar um CD do Lenny Kravitz. Quando eu já estava indo embora, a caminho do elevador, acabamos dando nosso primeiro beijo.

NÃO, na verdade tudo começou mais ou menos um mês antes disso: estávamos no departamento médico da faculdade, entregando os documentos para a dispensa de educação física. Embora eu já tivesse notado Sabrina naquela primeira semana de aula, ainda não tinha tido oportunidade de lhe dirigir a palavra.

Pois bem: como naquele dia eu estava particularmente expansivo, sentindo-me apto para levar adiante um processo de sedução, lhe pedi uma caneta emprestada e fingi anotar alguma coisa num papel. Aí comentei como era babaca essa obrigatoriedade de educação física na faculdade e perguntei se ela havia feito outros vestibulares. Surpreendi-me com a variedade de suas inclinações: Economia, no Mackenzie, Rádio e TV, na FAAP, e Biologia Marinha, na USP. Sabrina disse que era de uma cidade perto de Ribeirão Preto, Sertãozinho, e que se mudara para São Paulo havia dois meses. Falei então do time de hóquei sobre patins de Sertãozinho e Sabrina riu, como se, a cada vez que ela dissesse o nome de sua cidade, invariavelmente as pessoas lhe falassem do time de hóquei sobre patins.

MINHA relação com Sabrina foi a primeira que rompeu um padrão abjeto cujo ápice se deu quando eu estava com dezessete anos e, talvez querendo experimentar algum tipo de contato íntimo com uma mulher por quem eu vinha cultivando uma paixão não-declarada (e, por várias razões, não-declarável), cheguei a vasculhar o lixo de sua casa.

Tudo isso, porém, é passado.

Não preciso mais de restos – não vivo mais de migalhas.

Termino de tomar o chá, lavo a xícara e a devolvo ao armário. Caminho até a sala, recosto-me no sofá e ligo a TV.

SABRINA aparece na sala, vestida com um roupão azul, secando de modo delicado as pontas dos cabelos. Estou folheando uma Elle, correndo os olhos por suas páginas sem me deter em nada específico.

– Sabrina?

– Hum.

– Por acaso tem algum colégio aqui por perto?

Sabrina, que acabou de sentar numa poltrona, permanece em silêncio por algum tempo até que murmura, num tom de voz neutro:

– Colégio.

– É. Colégio.

– Não, nada. É que, na hora que a gente estava lá no quarto, eu tive a nítida impressão de ouvir um barulho, um vozerio de porta de colégio em horário de saída.

Sabrina dá uma risada curta e, começando a desembaraçar os cabelos a partir das pontas, diz:

– Você deve estar maluco.

– Não, é sério. Eu ouvi mesmo.

– O.k. – pausa. – Então tá.

Sabrina mora sozinha num apartamento de cento e quarenta e oito metros quadrados. Detesta aparecer em fotografias. É canhota. Tem o tipo sanguíneo O+.

Digo, levantando do sofá:

– Não sei se isso acontece com você, mas quando eu estou naquele estado letárgico, meio que cochilando, sempre ouço os sons que vêm de fora, da rua, com maior nitidez.

Silêncio.

– Não?

– Hum-hum.

Caminho até a janela e olho na direção da Vilaboim. Sabrina continua escovando os cabelos, minuciosa e pacientemente.

– Topa um cinema mais tarde? – sugiro.

– Acho que não. – pausa. – Não estou muito no espírito de sair hoje.

Escorpião e Áries. A sinastria de nossos mapas astrais indica muitas compatibilidades nos campos sexual e afetivo.

– O.k. Quer então que eu vá pegar uma comidinha? Tô meio com fome.

– Tá bom.

– Chinesa? Mac? Uns frios?

Tenho uma súbita vontade de urinar e caminho em passos altivos até o banheiro. Enquanto estou ali, em frente à privada, lembro do rosto do ator Marty Feldman e começo a rir.

– Eu já te contei o que o Evandro fez uma vez com uma namorada que ele teve? – grito à Sabrina, após dar descarga, fechar o zíper das minhas calças e começar a lavar as mãos.

Silêncio.

– Ele era moleque, tinha uns onze ou doze anos, e namorava uma garota lá da rua, a Andréia.

Termino de lavar as mãos e volto à sala. Sabrina está vasculhando a gaveta de um móvel e tira dela um pente de madeira. Prossigo:

– Essa Andréia vivia pegando no pé, enchendo o saco, a menina era mesmo o maior grude.

Silêncio.

– Um belo dia, o Evandro se encheu a tal ponto das babaquices dela que deu água de privada para ela tomar. E o pior é que imediatamente ele contou pra ela. Tipo assim, “Sabe o que você acabou de tomar? Água de privada”.

Sabrina larga o pente e, sem mais nem menos, começa a chorar. Um choro seco, tenso, espasmódico – um daqueles choros que, por quase não emitir ruído, nos deixam por alguns instantes na dúvida se se trata mesmo de choro. É a segunda vez que isso acontece, desde que começamos nosso relacionamento. A primeira foi em abril – dia vinte e seis de abril –, por causa de uma briga que ela teve com a mãe. Sabrina estava com aquela camiseta da Pretty Vacant e um jeans M’Officer e veio do quarto aos prantos, depois de ficar mais de uma hora ao telefone com dona Vânia. Então lhe perguntei o que havia acontecido e ela apenas gesticulou negativamente com a cabeça. Insisti, queria saber se estava tudo bem, se tinha acontecido alguma coisa grave, se eu podia fazer alguma coisa por ela. Sabrina apenas pediu que eu pegasse uma caixa de Kleenex no armário debaixo da pia do banheiro.

Vinte e seis de abril, sete lenços Kleenex.

Feitos com cellucotton, produto desenvolvido pela Kimberly-Clark em 1914 para substituir o algodão.

Sete.

Quatro amarfanhados, dois dobrados em pequenos blocos e um largado sobre a pia da cozinha.

Quatro, dois, um.

Sete.

Sete lenços Kleenex.