PUTA que pariu. Murmuro essa expressão chula ao ler meia dúzia de crônicas do Nelson Rodrigues presentes no volume O Remador de Ben Hur. Se ele tivesse passado longe do teatro e do romance, sua reputação de grande nome da literatura brasileira estaria mais do que garantida com as crônicas que escreveu. Acho que ele e o Fernando Sabino são, disparados, nossos melhores cronistas. Deixam nomes mais reputados no gênero, como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, no chinelo. O Paulo é poeta demais (e poeta grande demais) para um gênero que, para funcionar devidamente, precisa de uma certa ordinariedade lingüística, de um laivo de conversa de botequim - isso pra não falar de doses consideráveis de pessoalidade, leviandade e cara-de-pau. Já o Rubem pra mim é uma grande incógnita. Sempre que o leio tenho a sensação de que ele escrevia crônicas como se estivesse se desculpando por se dedicar a um gênero menor (e se desculpando conosco, seus leitores, por perdermos nosso tempo lendo bobagens). Sinceramente, não entendo essa unanimidade que há ao redor dele. Acho-o literário, depurado demais.

Falei aí em cima em ordinariedade, leviandade e cara-de-pau, coisas das quais um bom cronista não pode abrir mão. O pior é que não estou sendo irônico. Uma certa falta de integridade é indispensável a esse metier. O bom cronista é aquele que leva, lato e strictu sensu, seus leitores na conversa. Sacrifica-se a verdade e a exatidão dos fatos por um bom efeito ficcional. Ou melhor: sacrifica-se a verdade comezinha dos fatos por uma verdade maior, que os fatos nem sempre conseguem expressar. Nelson Rodrigues confessava-se um ignorante sobre teatro, dizendo que suas leituras de textos dramatúrgicos se limitavam ao Maria Cachucha, do Joracy Camargo. Claro, era mentira. Mas quê que interessa a verdade verdadeira dos fatos se os deliciosos picos criativos do Nelson dependiam de mentirinhas inofensivas como essa? Ele costumava chamar esses leitores criteriosos, presos ao compromisso com a tal da exatidão factual, de idiotas da objetividade.

O que é delicioso nas crônicas do Nelson, à parte sua pessoalidade, seus cacoetes verbais (não é água mineral, é água "da bica"), seu histriônico anticomunismo ("E desde quando comunista leva o pai ao médico? Comunista corta a carótida do pai com caco de Brahma Chopp"), é a sensação de proximidade e intimidade que ele nos dá com pessoas das quais nós, pobres zés-ninguém, só ouvimos falar em depoimentos de quinta mão, em geral obnubliados por toneladas e mais toneladas de palavras ocas e laudatórias. Que tal então ouvirmos a Cacilda Becker ser chamada de Olívia Palito (Nelson ressentiu-se com Cacilda após ela recusar-se a encenar um texto dele), ou ver o Oduvaldo Viana Filho ser tratado com a condescendência generosa que uma velha raposa dedica um pirralho? Ou o Otto Lara Resende ser exposto em suas mineirices menos lisonjeiras? O fato é que Nelson era um gênio, um visionário instintivo e intuitivo que dava altíssimas bolas dentro mesmo partindo de um reles fuxico. Soma-se a isso o fato de estar no lugar certo, no tempo certo e na companhia das pessoas certas e o resultado são páginas e mais páginas de um brilhantismo ímpar. Citei aqui seu livro de crônicas O Remador de Ben Hur por mero acaso, por ser o que ontem à noite tirei da estante e me deliciei com a leitura. A verdade é que todos os livros de crônicas dele são excelentes e indispensáveis.

Super, ultra, puxa, Maria Cachucha!, como dizia a Vovó Mafalda.