
BEM.
Quer dizer, minha mãe é uma pessoa meio nervosa.
Isso não significa que ela seja má, não é isso. Só que às vezes eu acho que ela exagera um pouco nos dramas.
Por exemplo, vacina contra pólio.
É. Eles me obrigaram, até os quinze anos. E o negócio é que eu odiava aquilo, ir lá, me meter numa fila só com crianças, tomar aquela porcaria. Quê que eles queriam mais? Que eu voltasse a usar fralda? Tomasse mamadeira? Era ridículo.
Eu precisei engrossar com eles. Pela primeira vez na vida engrossei com eles. Disse que preferia pegar poliomielite a ter que me expor mais uma vez àquele absurdo todo.
Um pouco. Mais por causa da reação deles. Aí eu acabei me sentindo como... como se eu fosse mesmo algum tipo de tarado.
Não. Quer dizer, de vez em quando. Nada muito –
Disso de eu ter jogado leite com amoníaco na calcinha dela?
Ah, histórias sobre o início do casamento, quando eles viveram por mais de um ano comendo só pão com banana, essas coisas. E o pior é que eles sempre contam essas coisas em tom de acusação. É, acusação. De eu e o Guilherme sermos mimados, mal-acostumados. Só a Mônica eles poupam um pouco disso.
Deixa eu ver... Escolheria... escolheria não ser tão medroso. É, acho que em primeiro lugar escolheria isso. Depois, perder minha timidez. Principalmente minha timidez com as garotas.
Isso de eu ser tímido com as garotas?
Muito. Pra caramba. E o engraçado é que não são todas as mulheres que me intimidam. Geralmente só as... as mais sofisticadas, entende? Aquelas que sabem que são bonitas e tal. Não sei por que, mas sempre que eu estou com uma garota assim, me sinto meio... meio cretino.
É isso, doutor, aos poucos eles foram ficando menos desconfiados. Minha mãe, inclusive, de uma hora pra outra deixou de revistar minhas coisas.
Sei lá, vai ver que com o tempo eles notaram que eu não era nenhum descabeçado, então foram ganhando um pouco de confiança em mim.
É.
Ah, é, que eu preciso aprender a me comportar feito adulto quando estiver com uma garota que me interesse. Tenho pensado muito nisso. Muito mesmo.
Na verdade, eu detesto quando alguém se apaixona por mim. É como se eu estivesse sendo obrigado a ser uma pessoa que eu não sou, a sentir coisas que eu não sinto, entende? E isso acontece pra caramba comigo. É aquela história do príncipe encantado, elas sempre me botam nesse papel ridículo porque, sei lá, eu sou tido como um dos caras bonitinhos lá da classe, e tal. A última foi a Beatriz, uma carioca que entrou lá na escola esse ano. Bonita ela, até. Aí, um dia ela mandou um bilhete para mim dizendo um monte de baboseiras, que adorava o Van Halen, que adorava os livros do Analista de Bagé, que adorava não sei mais quem. Tudo coisa que ela sabia que eu gostava.
Eu não fiz nada. Aliás, me fiz de desentendido. Achei uma puta falta de personalidade por parte dela.
É, ela dizer que adorava todas as coisas que eu adorava, tintim por tintim.
É uma imagem que surge na minha cabeça de vez em quando. É meio difícil de descrever, porque não é só uma imagem, mas tem um monte de sensações ligadas a ela.
Foi tudo bem.
Foi uma merda. – pausa. – Se eu pudesse voltar atrás e apagar o que aconteceu...
Não, eu e o Marcelo, meu primo, a gente tinha conhecido umas meninas lá na Enseada, a Silene e a Silmara. Foi no sábado isso. Aí a gente combinou de encontrar com elas de novo na segunda-feira. Até que eram bonitas elas, umas meninas altas, assim, com o cabelo liso, olhos claros. Bonitinhas, só que meio mocorongas, sabe como é? Então. O Marcelo, ele tinha ficado meio a fim da Silene, que fazia mais o estilo gostosona, e eu falei, tudo bem, vai em frente. Então a gente pegou o Del-Rey da mãe dele e foi lá no prédio onde elas estavam. Resumindo a história, eu acabei mentindo que estava apaixonado pela tal da Silmara. No fundo eu só queria dar uns catos nela e... Bom... A gente acabou mesmo dando uns beijos. Mas ela, de cara, assim, já começou a me pentelhar, aí eu cortei a menina, saí fora. Aí ela ficou puta da vida, contou pra mãe, aí a mãe dela, uma mulherzinha daquelas bem encardidas, foi lá no meu prédio e arrumou o maior pampeiro.
Eu estou deitado numa banheira, num banheiro amplo e enfumaçado. É o banheiro da casa da minha tia Dirce, lá no Guarujá. – pausa. – O sol bate em cheio no vitrô e minha pele está com aquela quenturinha típica de quem passou a manhã inteira na praia. Uma sensação boa, deliciosa. – pausa. – Minha namorada, que já é uma mulher de seus vinte e cinco, trinta anos, está penteando os cabelos em frente ao espelho. Ela é loira, tem um ar sério, profundo, uma postura corporal bonita, altiva, de nadadora. Eu fico olhando em sua direção enquanto ela permanece lá, só com uma toalha cobrindo o corpo. – pausa. – Acho que ela nunca esteve tão bonita como agora, tendo acabado de sair do banho. Eu olho para ela e tenho noção de como... de como esse momento é especial pra mim, pra ela... pra nós, em suma.
A Nádia foi a primeira garota por quem eu me apaixonei. Eu tinha sete, oito anos. Ela, uns quinze.
Naquele dia, tudo o que eu já tinha sentido antes pela Nádia, no decorrer dos anos, surgiu com uma tremenda nitidez na minha cabeça. – pausa. – Por exemplo, a vez em que nossa família toda foi jantar no Papa Genovese e que eu acabei sentado na frente dela. Eu lembro que ela estava com os olhos bem pintados, com lápis, sombra, e eu achei aquilo... absolutamente perturbador.
É impossível. É a mesa coisa que alguém tentar explicar por que gosta de barulho de chuva. – longa pausa. – Tem uma música da Kate Bush, In search of Peter Pan, que tem o clima disso que eu acabei de dizer. É uma parte que diz, running, into her arms, at the school gates. Correndo para seus braços no portão da escola. – pausa. – Eu lembro, eu tinha onze anos, aí minha mãe foi buscar a gente de carro na escola pra nós irmos direto pra festa de aniversário de uma prima minha. – pausa. – Isso foi em oitenta e dois, na copa passada. No carro a gente até foi ouvindo um jogo, um que a Hungria meteu dez gols em El Salvador.
Nádia Fagundes Rastelli. Uma das garotas mais lindas que eu já conheci. Linda. Uma beleza de doer. – pausa. – Uma beleza que dizia muito respeito a mim, não sei explicar também por quê.
Eu nunca senti atração sexual pela Nádia.
Não. Sexual, sexual mesmo, não. O que eu sentia era... uma coisa arrebatadora, que me deixava, sei lá eu, numa espécie de transe, hipnotizado. – pausa. – Teve uma vez, foi uma experiência interessante, lembrei agora. Eu tinha treze anos, a gente estava lá no aeroporto esperando a Mônica, minha irmã, que tinha viajado com o pessoal do colégio pra Foz do Iguaçu. Aí eu estava lá, meio de bobeira, quando então eu vi uma mulher. – pausa. – Ela estava num orelhão lá no setor de desembarque, falando. A primeira coisa que me chamou a atenção foi que ela estava usando uma blusa vermelha, de lycra, sem sutiã por baixo. Nem foi tanto por isso, mas o fato é que eu não consegui mais desgrudar os olhos dela. – pausa. – O.k., a mulher era bonita, bonita mesmo, só que aquele tipo de beleza dela até então nunca tinha feito minha cabeça. Uma coisa meio chacrete, entende? Meio Helena Ramos, atriz de pornochanchada. – pausa. – Bom, o fato é que, naquele dia, alguma coisa mudou aqui dentro e eu tive a nítida sensação de que ali, naquela hora, eu seria capaz de trocar qualquer coisa por alguns momentos na cama com ela. Qualquer coisa, mesmo. Por exemplo, eu trocaria todas as situações românticas que eu já tinha imaginado com a Nádia por uma simples metida com aquela fulana.
É como se... como se eu estivesse mais distanciado das coisas.
É, distanciado. Por exemplo, que nem quando eu vou ao Dorothy, um restaurante, pizza bar, lá na Giovanni Groncchi. Sempre que eu vou lá eu tenho a sensação de estar perfeitamente isolado do mundo, num espaço que é só meu e onde nada de mau pode me acontecer. – pausa. – Eu tinha essa sensação quando eu era moleque em relação ao Jack in the Box. Com o Shopping Iguatemi também. – pausa. – E eu não sei se eu já te falei isso, que o mês que eu mais gosto é junho.
Hum-hum. E isso eu já até analisei por quê.
Porque junho é um mês estável. Esses dias, assim, quando as férias estão chegando, me dão a sensação de que nada precisa ser definido, resolvido com pressa. Parece que tudo está a tempo de ser feito ainda. Porque, é fatal, fim de ano você sempre bota a mão na cabeça e diz, “Putz, mais um ano foi embora”. Não tem como você não se cobrar de alguma maneira quando um ano está acabando. Fiz isso, não fiz aquilo, que ano de merda. Em junho, não. – pausa. – É muito louco, isso, mas parece que em junho a gente está protegido da passagem do tempo.
Acho que eu vou dar um pulo até o Guarujá. Senão as férias passam e eu acabo não aproveitando nada.
Foi inacreditável. Primeiro eu fiquei conversando com ela por... duas horas, duas horas e meia, e absolutamente não senti o tempo passar. Isso foi um dia depois dela ter chegado lá na casa da minha tia.
De cara, assim, completamente. Parecia que a gente já se conhecia há anos.
Na verdade foi a primeira vez que eu conversei com uma mulher bonita sem sentir aquela coisa lá, aquela travação que eu costumo ter.
A Sandra é sete anos mais velha que eu. Tem vinte e três.
A gente passou a trocar idéias todo dia. Sei lá, a gente conversou de tudo, de tudo que era do nosso interesse, pelo menos. Música, cinema, astronomia. – pausa. – Ela me explicou a teoria da relatividade, que prova que viajar no tempo é possível. E é claro que, nessa altura do campeonato, eu já estava totalmente apaixonado por ela. Eu passei a viver meu dia em função da hora que ela ia chegar da faculdade e que a gente ia poder conversar mais um pouco. – pausa. – E a decepção quando ela chegava cansada, com dor de cabeça, e ia direto para o quarto? Putz, eu queria sumir. Eu pensava, “Puta merda, logo, logo ela vai embora!”. Nunca a noção de desperdício ficou tão clara para mim como naqueles dias.
Sinceramente? Eu não sei. Eu só... queria estar com ela, perto dela, ouvindo a voz dela, ocupando algum espaço na vida dela. Como isso ia ser, eu nem imaginava.
Numa daquelas noites, eu estava no meu quarto lendo Asterix quando ela bateu na porta, me convidando pra ir comer churros. – pausa. – Eu duvido, duvido que alguma outra vez na vida eu vá sentir uma sensação tão deliciosa como a que eu senti naquela hora. Parece até fora de proporção, toda essa alegria só por causa de uma droga de um convite para ir comer churros. Pois é, mas foi assim que eu senti.
A gente foi no carro dela até um parquinho. Ela comeu os churros enquanto eu fiquei fumando um cigarro. Eu até pensei que a Sandra fosse comentar alguma coisa, já que ela nunca tinha me visto fumando. Mas, não, ela não falou nada. Aí a gente deu um tempo lá, e tal, até que, na hora de ir embora, sem mais nem menos ela disse que eu era parecido com o baixista do Duran Duran. – pausa. – E esse cara, esse baixista, é meio que um dos galãs do grupo. Então a gente começou a rodar lá por uns lados meio desertos do Guarujá, até que a Sandra parou o carro e me deu um beijo.
É, beijo mesmo, na boca.
A partir daí tudo o que eu lembro são as sensações, o calor do corpo dela, eu ficando tonto, com aquela tontura que dá quando você fica assoprando a churrasqueira e acaba com pouco oxigênio no cérebro. – pausa. – Foi então que a coisa aconteceu.
É normal isso, doutor? Será que eu tenho algum problema? Será que meu corpo funciona direito?
Eu vou ler, tá?
“Oi, Sandra! Tenho pensando muito a respeito do que aconteceu entre nós, lá no Guarujá. Às vezes me dá vontade de que não houvesse mais ninguém no mundo além de nós dois; ou então que nós descobríssemos o acesso a um universo paralelo onde apenas nós dois pudéssemos estar (sei lá, são bobagens que às vezes passam pela minha cabeça...). Andei procurando aquele livro do Bertrand Russell sobre o qual você me falou, mas não o encontrei. Na livraria disseram que está esgotado, então nesse caso acho que eu terei que procurar num sebo. E as coisas na faculdade, como estão indo? Espero que bem. Me ligue qualquer hora – eu adoraria que você ligasse para mim. Do seu, Evandro. P. S. – Por que você não respondeu às cartas anteriores? Às vezes eu fico meio perdido, sem saber o que você está pensando sobre essas coisas que eu escrevo. Me escreva, o.k.?”.
Por quê que, mesmo eu sendo um cara como eu sou, inteligente, educado, bonito até, eu não estou conseguindo fazer a Sandra se interessar por mim?
Como é possível, como é possível ela ter invertido o jogo, assim, desse jeito brusco, se ela chegou ao ponto de me agarrar, de até tirar as calças pra mim?
Sei lá. Às vezes eu tenho a sensação de que é inútil ficar falando essas coisas todas. – pausa. – Não, na verdade tudo, tudo que se relaciona comigo e com a minha história é que às vezes me parece totalmente inútil e sem sentido.
Bom, primeiro foi essa coisa do intercâmbio, surgiu a oportunidade de uma hora pra outra. – pausa. – É claro, teria dado pra avisar, mas, sei lá, eu também tive que correr atrás de um monte de coisa, visto, passaporte, passagens, tudo num espaço de menos de uma semana.
Foi legal. Interessante.
Em Nebraska City, no Nebraska.
É, eu passei dez meses lá. – pausa. – Aí, quando eu voltei aqui pro Brasil, eu acabei ficando meio enrolado com Exército, vestibular, não deu pra fazer muita coisa. Um amigo do meu pai me arranjou um trampo de programador, sem carteira assinada, e eu topei. Com o que eu manjo de cobol e assembler, pfuu, foi moleza, pé nas costas.
Fiquei uns seis meses trabalhando lá. Deu até pra juntar um dinheirinho. Aí, antes de voltar a estudar, resolvi fazer uma viagem de novo. Fui pra Trancoso, Penedo, Visconde de Mauá, aquela região. Conheci a Camila na viagem e a gente começou a namorar. – pausa. – Faz cinco meses que a gente já está junto.
É.
A Camila é legal. Eu gosto dela.
É interessante isso, a gente perceber como a gente reage em situações reais. A Camila sempre me diz que eu transmito a ela uma tremenda segurança, que ela se sente muito segura perto de mim. E no fundo é ela, é ela quem estimula esse meu lado mais adulto, responsável.
A Camila é uma mulher muito inteligente.
O que mais me atrai na Camila? Tem vários pontos nela que eu acho interessantes. – pausa. – Sei lá, acho que o primeiro que eu mencionaria seria a maturidade dela.
Nosso amor é tranqüilo, sem sobressaltos. É a primeira vez que eu gosto de uma pessoa dessa maneira.
A alternância. Tem horas que ela parece feia, esquisita, assim como tem horas que ela fica até que bonita.
Se a gente for pensar direito, se apaixonar é uma das piores coisas que podem acontecer com uma pessoa, não é mesmo?
Você já tomou com chá de stévia com limão?
O pai da Camila é minhocultor.
É, cria minhocas.
Por incrível que pareça, esse assunto é muito interessante.
Não, o húmus é produto da transformação de matéria orgânica por microorganismos. É o que é chamado de vermicompostagem.
Eu sou muito feliz com a Camila, doutor. Muito mesmo.