
HUGO está passando pela crise dos 34 anos.
A crise dos 34 consiste em seu portador começar a se fazer insistentemente, em suas elucubrações íntimas, acusações do tipo, “Se há quinze anos eu tivesse tido mais senso prático não precisaria estar nessa tanga que estou agora”.
“Se eu tivesse me apertado um pouquinho e tivesse ido fazer aquele curso nos Estado Unidos...”
“Se eu tivesse topado ser sócio do fulano de tal, que cansou de me convidar e que hoje está rico...”
Etc.
Algumas das variações da crise dos 34 anos são: a crise dos 35, a crise dos 36, a crise dos 37 e a crise dos 38. A partir dos 39, qualquer crise por que você estiver passando passa a ser mera coadjuvante da famosa crise dos 40.
SENSO DE DECÊNCIA PESSOAL Pois bem. Hugo, que está passando pela crise dos 34, é dono de uma produtora de websites. Esse negócio de internet, sabe? Se sabe, deve imaginar que os negócios dele provavelmente não estão indo lá muito bem.
Pra dizer a verdade, os negócios de Hugo estão indo de mal a pior.
Ele já está começando até a pensar em fechar o escritório.
Partir pra outra, sei lá.
É exatamente sobre isso que ele está matutando agora, sentado à sua mesa de trabalho.
“Mais um mês fraco como esse e eu parto pra outra.”
Apesar da possível – e cada vez mais próxima – falência de sua firma, Hugo não precisa temer acabar indo ter de morar debaixo da ponte ou qualquer coisa do tipo. Sua mulher, Carolina, é uma profissional do mercado financeiro extremamente bem-sucedida.
Contudo, para Hugo é um ponto de honra ter uma atividade profissional lucrativa. Menos pelo que seus ganhos poderiam pesar no orçamento doméstico do que por um senso de decência pessoal.
“QUINDIM” Um e-mail acaba de chegar ao micro de Hugo.
From: Francine Bueno
To: hugo_crepaldi@zag.com.br
Sent: Tuesday, August 20, 2002 10:57 AM
Subject: vc é o “quindim’?
Ola!
Por acaso vc eh o Huguinho, o “Quindim’, que estudava la no N.S. das Graças?
Abs!
Francine Bueno.
Francine.
A descarga de adrenalina que a leitura desse nome causa em Hugo faz ele sentir como se o Coil, o Homem Mola, tivesse acabado de se materializar em seu estômago.
CAPI, CAPIVA, CAPIVARÁÁÁ Dezoito anos antes.
Corre o ano de 1984.
O Van Halen está com três músicas na parada de sucessos: Jump, Panama e Hot for the teatcher.
Beto Rivera e Capivara (Capi, Capiva, Capivará) comandam o Realce, o programa de videoclipes de maior audiência na TV.
Na Globo, dona Bina (Geórgia Gomide) vive falando dos “cabelo fofo de algodão” do seu Oliva (Walmor Chagas) na novela Vereda tropical.
Não há quem não deseje ter um Monza SL/E, preferencialmente da cor vermelho-tomate.
Garotas e garotos, com os cabelos empastados de New Wave e usando roupas verde-limão da OP, dançam no Radar Tantan ao som de Devo e B-52’s.
Figueiredo é o presidente da república.
“Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo.”
Hugo Crepaldi Villaça e Francine Maria Bueno estudam no 2o. colegial B da Escola Nossa Senhora das Graças, vulgo Gracinha.
NO ACONCHEGO DO LAR – Cacá, há quanto tempo você enfornou os croquetes? – Hugo, olhando para dentro do forno, pergunta à Carolina.
– Hi, caramba... acho que foi oito e meia.
– Tem certeza?
– Acho que sim.
Hugo fecha o forno e diz:
– E agora, como é que a gente vai saber se ficou pronto?
– Foi, foi oito e meia. Tinha acabado de começar o jornal.
Hugo olha para o relógio na parede da cozinha: 20h40 e alguns quebrados. Vai até a sala, se joga no sofá e fica zapeando a TV. Carolina sai da cozinha com uma porção de granola e mamão numa cumbuca e vai sentar numa poltrona ao lado do sofá.
“A CIA e o Departamento de Defesa planejam uma operação no norte do Iraque para destruir o que parece ser um laboratório de armas químicas, possivelmente controlado pela rede terrorista Al-Qaeda, informou ontem a rede de TV a cabo CNN.”
– Sabe quem esse George Bush parece? Com o Sérgio, aquele seu primo – Carolina diz, comentando a notícia.
– É, parece um pouco, mesmo.
Serginho. Ginecomastia.
“As imagens de um cachorro agonizando ao servir de cobaia para experiências com armas químicas no Afeganistão, exibidas ontem pela CNN, estão chocando os americanos.”
– Preciso ver umas coisas no micro – Hugo diz, já se levantando. Caminha até o quarto, liga seu laptop, se conecta e verifica sua caixa de e-mails.
Não há nela nada além de três decepcionantes spams.
STARDUST MEMORIES São duas e quinze da madrugada.
Hugo está deitado no sofá da sala, com um livro aberto sobre o peito, olhando para o teto.Pensa na noite em que começou a namorar Carolina – uma noite fria, num sábado qualquer perdido no ano de 1995. Tinham ido comer uma pizza na Ráscal do Shopping Iguatemi. Eram, até então, apenas amigos. Carolina inclusive namorava na época um sujeito, um tal de Combu.
E então, ao saírem da Ráscal e começarem a caminhar pelo estacionamento externo do shopping, Hugo parou e olhou o céu, que estava absolutamente limpo e cheio de pontos brilhantes. Carolina, com seus cabelos chanel pintados de vermelho, seus olhos verdes, seu casaco cinza de gola chinesa, lhe pareceu uma presença tão aconchegante, tão maravilhosamente feminina, tão bela, que ele teve certeza de, naquele momento, estar incorporando a seu patrimônio de vivências uma recordação da qual nunca mais iria conseguir se livrar.
FASCINANTE, BOSTA TOTAL No dia seguinte, Machado diz a Hugo, durante o almoço:
– Quer um conselho de amigo?
– Hum.
– Sai fora. Não dê sopa pro azar. Essa história de encontro sem maiores intenções não cola. Você sabe que não cola.
– É. – pausa. – Acho que sim.
– E tem outra coisa: e se a mulher virou um bucho? Em dezoito anos tudo pode acontecer, meu caro.
Pausa.
– Ó, tá legal – Hugo diz, espalmando as mãos sobre a mesa –, eu confesso que fiquei meio balançado com esse e-mail que ela me passou. – pausa – Só que o negócio é que eu tenho medo de me arrepender, de deixar passar uma coisa que pode acabar sendo muito legal, agradável e não ter nenhuma conseqüência ruim por pura covardia.
Machado, com o cigarro na boca, tenta acender um mini Bic quatro vezes até conseguir uma chama hesitante. E então diz:
– Já te contei que há uns dois ou três anos o pessoal do meu colégio se reuniu pra comemorar quinze anos da formatura do terceiro colegial?
– Não, não contou, não. – pausa. – E aí, você foi?
– Fui, claro.
– E como foi?
Machado finalmente acende o cigarro, lhe dá uma tragada profunda e responde:
– Por um lado, fascinante. Por outro, uma bosta total.
– Fascinante. Bosta total.
– Fascinante porque, num primeiro momento, quando você vê aquelas pessoas todas reunidas de novo, certas lembranças suas ficam extremamente avivadas. No duro mesmo, parece que o tempo voltou atrás, ou simplesmente não passou. É uma coisa extremamente eufórica essa sensação, é como voltar a ter treze anos. Só que aí vem a bosta total.
– E como é a bosta total?
Machado fica um tempo pensativo até que diz:
– É meio difícil explicar. Tem algo a ver com um sentimento de decepção.
– Decepção.
– É, uma decepção profunda. – pausa. – Alguma vez você já sonhou que finalmente estava namorando aquela garota por quem você vinha apaixonado há tempos, e tal, só que aí você acorda e se dá conta de que vocês não estão namorando, de que tudo não passou de um sonho?
– Hum-hum, já.
– Então, a coisa é meio por aí.
OI, QUINDIM! From: Francine Bueno
To: hugo_crepaldi@zag.com.br
Sent: Wednsday, August 21, 2002 16:14 PM
Subject: oi, quindim!!!
Oiiiiiiiii, quindim!!!
Liga pra mim. Meu tel é: 5555-0431
Bjs!
Francine
SEM MAIORES OBJEÇÕES Na noite em que foi se encontrar com a ex-namorada, Hugo inventou para Carolina que ia jogar baralho com uns amigos e que, portanto, não tinha hora pra voltar. Carolina aquiesceu, sem fazer maiores objeções além de um tímido “amanhã você precisa levantar cedo, tenta não encompridar muito”.
TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO Rua Joaquim Floriano. Não muito diferente de quando ele, Hugo, estudava no Gracinha. O Joakin’s. O New Dog. O consultório de um oculista, exatamente com o mesmo letreiro de quando ele era moleque. O Baby’o, porém, fechou. O restaurante O Forno também. Fazia alguns anos que Hugo não passava por ali. Lembrou-se de uma noite, em 1983, 84. Seus pais o haviam buscado numa festa. Na volta pararam para comer uma pizza. Aquela música, I won’t let you down, estava tocando no restaurante. Lembranças mais remotas: o dia na copa de 78 em que foi com a mãe no consultório do dr. Rufino para ela consertar um pivô. Dr. José Rufino Fonseca, Cirurgião Dentista. Seria o consultório dele ainda ali –
AS SENSAÇÕES Hugo sentiu um arrepio perpassar sua coluna.
Sentiu suas faces se afoguearem.
Sentiu-se lânguido.
Sentiu uma agitação crescer em seu íntimo, na medida em que Francine se aproximava de sua mesa.
Sentiu que corria o risco de não conseguir pronunciar nenhuma palavra, tamanho era seu arrebatamento.
Sentiu o perfume de Francine finalmente alcançar suas narinas.
Sentiu uma admiração intensa por sua beleza, pouco modificada em dezoito anos, mas maravilhosamente amadurecida.
Sentiu bater uma espécie de barato de maconha.
Sentiu uma vontade louca, impulsiva e imediata de cair de boca na pélvis dela.
(Sempre há uma primeira coisa que Hugo tem vontade de fazer com uma mulher: com algumas, beijar; com outras, beliscar suavemente os peitos; com outras, ser massageado; com outras, penetrar e ejacular imediatamente; com outras, apenas observar.)
Sentiu seu corpo se erguer e as juntas do joelho darem uma formigada.
Sentiu o corpo de Francine estreitado ao seu, num abraço, e seus lábios tocando o rosto dela.
Sentiu a voz de Francine lhe dirigir uma seqüência de palavras cujo sentido não teve dificuldade em decifrar.
Sentiu-se momentaneamente transmutado na cadeira em que Francine se sentou, recebendo o peso de seu corpo, acomodando-a.
Sentiu que talvez sua vida não fosse mais ser a mesma dali por diante.
MAIS OU MENOS TRÊS SEMANAS DEPOIS Carolina com sua mãe ao telefone:
– Alô?
– Carol? É você?
– Oi, mãe.
– Carol, que dificuldade de ligar para aí. Faz mais de uma hora que eu estou tentando.
– É mesmo?
– É, pra dizer a verdade, quase uma hora e meia.
– Que estranho... Acho que eu preciso mesmo chamar a Telefonica. Já não é a primeira vez que alguém diz que tentou ligar pra cá e só deu ocupado.
– Ã-hã.
– Bom... e o papai?
– Então, ele consultou o dr. Ivo, aquele cardiologista que a Sueli indicou. O doutor acha que é melhor fazer mesmo a angioplastia.
– É mesmo?
– É.
– Puxa... – pausa. – E ele, tá aí em casa agora?
– Não, ele foi até o clube. Acho que ele foi lá encontrar o Astolfo e o Procópio.
– Hum. E ele... quê que achou? Como é que ele está lidando com a idéia?
– Bom, ele não gosta de tocar nesse assunto. Você conhece seu pai.
– Sei.
– E eu prefiro não insistir, porque aí acaba deixando ele mais nervoso, então acontece que nem o Adalberto, que morreu fazendo o bendito check-up, de tanto estresse que passou.
– Hum-hum. É, é melhor mesmo. Não enche a cabeça dele.
– Ã-hã. – pausa. – E você, está sozinha?
– Tô, o Hugo está trabalhando num cliente, não tem hora pra chegar.
– Sei. – pausa. – E ele, melhorou?
– Melhorou do quê?
– Daquelas esquisitices que ele andava tendo.
– Ah, tudo bem. Melhorou, sim. Ele anda muito cansado, o grande problema dele é não relaxar, trabalhar demais. Essas coisas.
– Hum...
– Hum o quê, mamãe?
– Bom, eu não tenho nada a ver com isso, mas eu ainda acho que ele devia se consultar com alguém.
– Esquece, o Hugo tem uma total resistência a –
– Meu amor, a partir do momento que os tormentos dele atingem e afligem você, isso não é mais apenas um problema dele. (...)